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Dizem os entendidos que duas condições são fundamentais para o impeachment de um presidente: perda do apoio no congresso e pressão popular. Estas duas estiveram presentes tanto no caso Collor quanto na queda da Dilma. Na verdade, é bem possível que no limite seja a pressão popular a fundamental, pois ela termina impactando especialmente nos deputados, bem mais sensíveis à opinião pública.

Longe de mim querer defender um sujeito como Temer, até porque ele e seu partido foram fundamentais para a continuidade do partido das trevas no poder, mas não deixo de observar que apesar de toda campanha da grande mídia, encabeçada pelas organizações Globo, as ruas estão vazias. Tirando os pelegos de sempre, o povo não está exigindo a saída do presidente. Esqueçam essas pesquisas fajutas, até porque as perguntas são colocadas de forma a induzir a resposta, o importante é que não existe nenhuma manifestação popular pedindo a cabeça do presidente.

Por que? As denúncias são graves, há evidências de má conduta do presidente, e a campanha dos formadores de opinião _ que não entenderam que formam cada vez menos opinião _ é inclemente, mas mesmo assim o povo observa tudo meio que em silêncio, desconfiado. 

Acho que a palavra correta é essa mesmo, desconfiança. As pessoas comuns sentem que tem algo errado na movimentação da PGR, na cobertura da mídia, na revolta dos partidos de extrema esquerda que só enganam universitários, o que prova que há um problema sério nas universidades, e os cidadãos do Projaquistão. O povo está desconfiado do mesmo jeito que alguém fica quando querem empurrar um carro usado de origem suspeita. Temer é inocente? Provavelmente, não. Mas o vendedor da tese é muito suspeito.

Meu palpite é que as pessoas comuns pressentem o caos. Jornalistas adoram a confusão, ganham audiência e cliques quando a coisa desanda. Já o João e José querem mesmo é um emprego e fazer supermercado. Sabem que Temer fica até ano que vem, o tempo para ir levando sem muitos sustos a economia. Ao contrário, quem desarrumou recentemente o coreto foi a denúncia irresponsável e sem apuração devida da Globo, que mostrou uma gravação que não continha o que tinha alardeado. 

Isso quer dizer que o crime é permitido desde que a economia vá bem? Claro que não, mas numa democracia é preciso de uma boa certeza antes de jogar o país no caos. Antes que comparem Dilma com Temer, a primeira foi muito além de uma corrupção comum. Desarrumou a economia do país para sustentar uma máfia no poder, usando para isso BNDES, taxa de juros, bancos estatais e festas irresponsáveis. Além disso, pretendeu uma hegemonia cultural contra tudo que o brasileiro acredita. Não dá para falar de agenda ideológica no governo Temer, nem de destruir a economia de um país em proveito de um projeto. O Brasil já estava no caos antes do impeachment, não podemos esquecer. 

O povo pode não entender nada de economia, mas sente que tem algo muito podre por trás do moralismo daqueles que durante 13 anos atuaram para proteger os novos donos do poder. Estão começando a ficar céticos, e isso é bom. Por isso Temer continua, a despeito do choro da raça de víboras, que tanto mal fez e faz ao Brasil. 

As questões de Brasília

Ao invés de querer ter razão e emitir logo opinião sem fundamento, tenho acompanhado o que está saindo até aqui. É muito difícil saber ao certo o que é verdade. Há interesses pesados envolvidos, inclusive da maior empresa de televisão do país, que recebe grande aporte de propaganda da JBS, o que nos faz perguntar até que ponto o que seus jornalistas estão noticiando é exatamente verdade.

  1. A situação do Temer é grave, apesar da lambança com a tal gravação. Em situação normal, é para derrubar mesmo. Mas a sua substituição está sendo associada a um movimento de eleição direta antecipada, que desperta muita incerteza. A pior coisa que pode acontecer é a volta do PT ao poder com voto popular. Nada segurará o ressentimento dessa turma.
  2. O Lauro Jardim, e a Globo, venderam a gravação como definitiva. Não é o que estamos vendo. As provas documentais são mais graves do que esse áudio dúbio de valor questionável. Por que a pressa da emissora em se livrar do Temer?
  3. Há uma moderação ao tratar do tema por jornalistas fora Globo que contrasta fortemente com a emissora carioca. O que eles sabem? Ou, o que eles pretendem?
  4. O STF não é garantia nenhuma de manutenção da constituição. E faz tempo. Do mesmo jeito que fatiaram o impeachment, em emenda proposta pela Rede, não esqueçamos, podem permitir qualquer coisa para solucionar a crise.
  5. Uma coisa não tenho dúvidas: a JBS soltou dinheiro para todo mundo para ter toda política brasileira amarrada. Bolsonaro, por quem não tenho toda essa simpatia, sentiu o risco e devolveu o que foi doado para campanha de seu filho. E alertou publicamente para o fato. Significa que vários políticos receberam dinheiro da JBS sem pedir, uma oferta “desinteressada”. Estamos sabendo a razão.
  6. Qualquer chance de recuperação da economia a curto prazo foi para o brejo a essa altura, qualquer que seja o desfecho. A crise vai piorar.

O que me leva a tentar formular a questão central disso tudo.

É possível fazer as reformas necessárias e gerar condições para um desenvolvimento econômico sem passar a política a limpo? Até agora eu achava que sim, que o governo Temer poderia fazer esse papel e tomar as medidas impopulares para entregar um país pelo menos com alguma ordem nas contas em 2018. Que a lava jato poderia ocorrer paralelo com uma recuperação emergencial da economia. Mas é possível realmente?

Começo a achar que vai ser necessário realmente o caos político, com muitas prisões e ruína econômica completa para termos alguma chance de ter um futuro. Do jeito que a coisa estava caminhando com Temer, teríamos uma pequena melhora, a volta a um desenvolvimento medíocre, até o próximo grupo populista acender ao poder e torrar nosso futuro todo novamente. O Brasil precisa colocar um fim ao ciclo crise econômica-estabilidade forçada- desenvolvimento medíocre, e talvez a solução mesmo seja o apocalipse.

Não nos iludamos. Não é possível punir os políticos sem punir a sociedade brasileira inteira junto com crise aguda, perda de confiança, desemprego e etc. A grande pergunta que temos que responder é se estamos dispostos a pagar esse preço.

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Para os leitores de Rene Girard, os próximos dias no Brasil serão bem interessantes. Embora os grampos até agora falem em Temer e Aécio, não há muita dúvida que vai atingir muita gente, de todos os partidos. O potencial para um crise mimética é grande, repetindo o que aconteceu ano passado. Para entender o pensamento de Girard, recomendo esta palestra. (Aviso: é uma palestra que vai mudar sua forma de ver o mundo. O poder da tese de Girard é extraordinário)

Qual foi a solução da crise ano passado? A classe política inteira, incluindo os petistas, apesar de todo teatro, ofereceram um bode expiatório para pacificar o ambiente. O impeachment foi em boa parte isso, o sacrifício de um dos seus para acalmar a todos e gerar a paz. Foi o que ocorreu. Do impeachment para cá, a política brasileira viveu um período de relativa paz, tanto que os políticos já começavam a tirar as mangas de fora para sepultar a Lava Jato. Quando falo políticos, refiro-me aos três poderes, pois os ministros dos tribunais superiores também são políticos, de toga, mas políticos.

Com a delação da JBS, nova crise já começa. A saída, como sempre, é o mecanismo do bode expiatório. Vai funcionar? Como Girard ensina, só funciona se todos estiverem convencidos que o bode é realmente culpado; caso contrário, a paz não se sustenta.

Serão dias interessantes.

 

Estamos chegando perto do meio do ano e já temos alguns lançamentos para acompanhar.

1. Chris Stapleton (From a Room: Volume I)

Mistura de country e southern rock. Prestem atenção nas músicas I Was Wrong e Without Your Love. Coisa fina. Candidatíssimo a melhor disco do ano.

https://open.spotify.com/embed/album/48lNtKwbQfwWsweRPdf16V

2. Father John Misty (Pure Comedy)

Música com alma, onde uma certa tristeza aparece a cada faixa.

https://open.spotify.com/embed/album/3CoFoDt6zt5EKxmTpOX32b

3. Blondie (Pollinator)

Sim, Deborah Harry e trupe estão de volta fazendo o que sabem de melhor: adaptar um som calcado no punk rock dos anos 70 com as tendências da música pop ao longo do tempo.

https://open.spotify.com/embed/album/6o4STrKI7oQoWppn6Nkdp5

Uma psicopata no poder?

De tudo que Monica Moura falou, o que me chamou mais atenção foi a estória do email, talvez a mais fácil de checar. Se for verdade o que ela contou, que a ex-presidente escolheu o nome da conta iolanda2606, fazendo referência ao ato terrorista que resultou a morte de um soldado recruta do Exército que estava de sentinela, o significado é profundo.

Não se trataria mais de uma idiota corrupta como pensávamos até aqui. O que esse email revela é uma mente de psicopata, que sente profunda alegria com um ato que resultou na morte de um inocente. Não se sabe até onde foi a participação dela no atentado, mas parece que ela estava na célula que o executou.  Muda completamente a visão que eu tinha dessa mulher. Achava-a uma inapta, mas agora me pergunto quem realmente é.

Começo a achar que a subestimei.

Tínhamos uma psicopata no poder.

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Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Confesso que já não tenho o mesmo interesse pelos destinos do petismo que tinha até o impeachment. Na verdade, seu destino foi traçado na divulgação daqueles grampos em que se mostrou, com toda a vulgaridade envolvida, como a turma operava. A partir daí, foi tudo consequência. Não tive dúvidas no dia que o governo tinha acabado e que, uma vez fora do governo, não tinha mais como o partido manter sua força. Se tornou grande demais e pesado para viver sem nosso dinheiro.

Hoje tem um grande confronto em Curitiba. Mas não se trata da narrativa que parte do jornalismo tenta vender entre Moro e Lula. Trata-se do confronto entre promotores públicos e advogados de defesa em torno da culpa do ex-presidente. Estes sim estão no mesmo nível. Ao juiz cabe julgar, dar a sentença em função da competência de uma das duas partes em provar sua tese. Muito se fala do papel de Moro; acho muito mais importante o papel da promotoria. Mas não é disso que quero falar.

Eu não acredito em qualquer futuro político para Lula por causa da erosão do símbolo. Houve um momento que ele conseguiu construir um avatar que o brasileiro conseguia se identificar. O homem sofrido, que veio do nordeste, que venceu com honestidade, e um pouco de malandragem, que denunciou a corrupção dos políticos, que falou a voz do povo. Este símbolo foi eleito em 2002. O anterior, cheio de raiva e querendo mudar tudo, nunca ganhou nada. Em 2006 apareceu como o homem traído, mas que tinha uma malandragem que caiu bem também com um povo mais cínico, que descobriu com o mensalão que não era possível governar sem algumas concessões. Ganhou de novo. Ele representou nesses dois momentos o brasileiro socialmente dominante, o revoltado com a corrupção mas que não queria perder as conquistas da estabilidade econômica, e o brasileiro mais cínico, que descobria que tinha que ser assim mesmo, que todos roubavam.

Quando houve a famosa condução coercitiva, o Lula de ódio nos olhos voltou, o jararaca. Este a população nunca vai se identificar. Naquele momento eu vi a falta que faz um marqueteiro como João Santana, que nunca deixaria ele dar uma coletiva naquelas condições. Esse Lula fala para a própria militância, mas essa turma não ganha eleições.

Hoje vai aparecer um novo símbolo, o da jararaca no banco dos réus. Não é à toa que os advogados tentaram impedir a filmagem. O Lula acuado, na condição de réu, quebra completamente a aura de mito. Acho que nem vai concorrer em 2018, pois a ilusão de que é imbatível nas urnas é seu último trunfo. Precisa vender a todo tempo que tem o povo ao seu lado, daí a mobilização. Só que dessa vez não está lidando com aqueles panacas do PSDB.

O brasileiro pode se identificar com o sofrido, com o malandro, com o persistente, com o lutador, com o traído. Mas não consegue se identificar com a revolta e nem quer com o fracasso e a decadência, tudo que o Lula é hoje. Por isso seu futuro está destruído, assim como seu passado e presente. Quando elegeu Dilma tinha iniciado um processo de destruição de sua biografia sem saber.

Estamos vendo agora o fim desse filme. Não sabemos o que vai acontecer no particular, mas o símbolo foi erodido. Pode empolgar a minoria militante que vive na revolta constante contra a realidade. Mas o homem comum só vê, com horror, a coisa patética com que ele se tornou.