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The Who By Numbers

Lançado em 1975, depois dos ambiciosos Tommy e Quadrophenia, trata-se talvez do mais introspectivo dos trabalhos do Who. O guitarrista e compositor Pete Townshend despeja um conjunto de canções pessoais resultando em um album um pouco diferente dos demais, mais obscuro e praticamente não inserido nos show, com exceção da maravilhosa Dreaming From The Waist.

Roger Daltrey brilha com sua voz poderosa, e John Entwistle no baixo e Keith Moon na bateria são a cozinha do rock por excelência.

Pete trata do seus problemas com alcoolismo de forma tão pessoal em However Much I Booze que Daltrey se recusou a cantá-la e o próprio guitarrista canta versos como “Then the night comes down like a cell door closing“.
Em Imagine a Man e Slip Kid ele mostra a angústia da indústria do rock e de se ver envelhecendo no processo e se tornando uma paródia de si mesmo.

Até que ponto as amizades são verdadeiras é a questão na linda How Many Faces: “How many friends have I really got? That love me, that want me, that’ll take me as I am?“.

Squeezy Box foi uma brincadeira de Pete com acordeão e acabou no disco contra sua vontade. Para surpreza geral chegou a número 16 na Billboard e permaneceu na lista dos 100 melhores singles por 16 semanas estabelecendo o recorde da banda.

O clima pessoal e intimista do album só é quebrado pelo poderoso rock Success Story de John Entwistle, onde faz uma crítica da própria história da banda e cai como uma luva na temática do disco.

Um album diferente que mostra porque considero Pete Townshend o melhor compositor que o rock já teve. Apesar de um disco menor quando comprado a tantas obras fantásticas do Who, ainda é muito melhor que média.

Eu sempre tive curiosidade de saber como os alemães, na década de 30, abriram mão de suas liberdades para seguir uma ideologia assassina. A pandemia nos deu a resposta: pelo medo. O grande problema é que sem liberdade, o homem perde também sua dignidade e se torna um instrumento para aplicação de políticas e experimentos sociais. Uma baita aula em escala real.

A CPI do covid também é um pastiche dos tribunais revolucionários na França. Quem entrava ali sabia que já estava condenado. Por infringir alguma lei? Não, para satisfazer a sanha de um bando que tinha gosto por sangue humano. O que as pessoas tinham a falar importava nada. O que eles queriam era humilhação da vítima antes de condená-las.

Fico profundamente revoltado com a forma como médicos que acreditam realmente no tratamento inicial do covid, como acontece em qualquer doença, conhecia ou não, estão sendo tratados naquela CPI, o que só é possível pela forma como a maior parte da imprensa está cobrindo tudo isso. Já falei antes aqui, se tem alguma coisa realmente genocida no Brasil é nossa imprensa. Eles demonizaram qualquer chance de tratamento, o que afetou principalmente os mais pobres. Por causa da campanha que conduziram, o tratamento dentro do SUS se tornou muito difícil, além de ajudarem a criar uma casta de médicos que se recusam a tratar seus pacientes por razões ideológicas.

Acusar Bolsonaro te tudo isso é procurar um bode expiatório. Os grandes culpados estão nas redações, promovendo uma revolução que só existe na cabeça deles, mas que deixam milhares de mortos pelo caminho. Um verdadeiro teatro macabro do absurdo.

Só espero que como a revolução francesa, terminem na guilhotina que ajudaram a construir.

Cultura

Li em Fundamentos de Antropologia: chama-se cultura a ação da pessoa dentro da sociedade. Achei bem interessante esta definição.

Vejam que a cultura, neste entendimento, não se restringe a obras de arte ou algo específico dos artistas. A cultura fazemos todos nós o tempo todo. O que grandes artistas fazem, eventualmente, é registrar esta cultura.

Aqui cabe também a grande crítica ao artista ideologizado. Este não registra a cultura real, mas a que existe em sua cabeça, ou seja, uma cultura imaginada. Ele é mais um sintoma de uma doença espiritual do que um artista de verdade.

Todos temos cultura. Mesmo que seja um lixo.

O Homem como Pessoa

O Capítulo 3 de Fundamentos de Antropologia (livro que estou relendo todos os sábados) trata do centro da dignidade humana, o fato de se tratar de uma pessoa. É sua caracterização como uma pessoa que lhe confere dignidade, base de sua inviolabilidade. Quando se viola a pessoa humana há uma manifestação de grave desordem.

Para Stork e Echevarría, a pessoa tem 5 marcas características.

  1. Intimidade: temos um interior acessível apenas a nós mesmos
  2. comunicação da intimidade: somos capazes de comunicar nossa intimidade
  3. liberdade: somos livres para manifestar nossa intimidade
  4. capacidade de ar: em sua expressão mais radical, o amor
  5. diálogo com outras intimidades: somos um ser que necessita de diálogo

O capítulo trata também da natureza humana, um fundo em comum que todas as pessoas possuem. Para os autores, a orientação para fins determinados, em sua última expressão a verdade e o bem. O homem é livre para escolher os meios e os fins intermediários, mas possui um destino para a perfeição. Um homem desordenado luta contra esta natureza.

Interessante também a visão sobre as questões do aborto e da eutanásia. Um feto não possui capacidade de agir, seria uma pessoa? O mesmo para uma pessoa incapacitada, teria deixado de ser uma pessoa? O equívoco está em acreditar que apenas quando agimos somos uma pessoa quando na verdade a capacidade de agir, seja ela no passado ou no futuro, já nos faz pessoas. Assim, o feto tem capacidade para se desenvolver e agir; o incapacitado já a teve. Em ambos os casos é uma pessoa e possui uma dignidade que não pode ser violada.

O homem é um ser perfectível e constrói sua história no desenvolvimento de sua própria história, movido por sua própria natureza. A forma como age ao longo de sua vida caracteriza sua ética pessoal, que é justamente a capacidade de agir de acordo com a sua natureza humana, ou seja, de perseguir a verdade e o bem.

Inveja

Estou vendo Hungria x França pela Eurocopa. Por enquanto, temos uma zebra. A Hungria vai vencendo por 1 x 0.

Mas o que me deu uma baita inveja foi ver o estádio lotado.

Quando voltaremos à normalidade?

CPI da vergonha

Não vou perder meu tempo comentando a pantomina que se transformou esta CPI.

Um dos pontos mais baixos da história do Congresso Nacional. E olha de quem estamos falando!

Uma proeza que só certos homens públicos conseguiriam.

Parabéns.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset definia o homem massa como aquele que não cultua nenhum valor e tem a ignorância como uma espécie de direito, que pode e deve impor ao próximo. Antes de seu surgimento, as pessoas tinham uma certa vergonha de sua própria ignorância e se recolhiam a um silêncio respeitoso, evitando opinar sobre o que desconheciam.

Tudo mudou na modernidade. O homem bate no peito, exalta sua ignorância e tem uma opinião sobre tudo. Não se trata de classe social, não é por ser pobre que se torne um homem massa; erro ainda pior, é achar que por ser rico está a salvo deste mal. Também não tem a ver com estudo. Há pessoas inteligentíssimas, doutores universitários, que são autênticos homens massa. Basta ver o que os chamados especialistas andam falando (especialmente os jornalistas).

Cervantes nos traz uma personificação maravilhosa do homem massa com Sancho Pança, o fiel escudeiro de Dom Quixote (este sim um homem autêntico e por isso mesmo incompreendido na modernidade). Sancho se vê como um pragmático e realista, mas no fundo é um idiota incapaz de se colocar limites. Culmina com a pretenção de ser um governante, tornando-se governador de uma ínsula, que por sua vez representa o Estado Nacional Moderno. 

Aliás, uma das características da modernidade é justamente o governo pelos homens massa. Quando vejo a foto dos líderes do G7 vejo um conjunto de Sancho Panças. Ignorantes que se vêem como capazes de lidar com temas complexos, como esta pandemia maldita. O mesmo acontece nas redações, universidades e burocracias estatais. 

E quando aparece uma pessoa pública com valores, o que não elimina suas imperfeições, é visto da mesma  maneira que Dom Quixote pela corte do Duque. Com desdém e afetação de superioridade.

Cervantes foi um gênio.

Sobre o sentimentalismo

Ontem li esta passagem do livro Fundamentos de Antropologia, de Stork e Echevarría.

A conduta não mediada pela reflexão e pela vontade, dizer, o sentimentalismo, produz insatisfação. Adotar quer como critério para uma determinada conduta, a presença ou a ausência de sentimentos que a justificam, gera uma vida dependente dos estados de ânimo, uma certa atitude escravizada. Os ânimos são cíclicos e terrivelmente mutantes: as euforias e os desânimos vão se sucedendo, sobretudo nos caracteres mais sentimentais, desfazendo o domínio da vontade. A conduta deixa de responder a um critério racional e depende de como nos sintamos. Isso é o que chamamos “ter ganas” (de estudar, de trabalhar, de discutir, de dar explicações etc.).

Ter ganas de, como critério de conduta, não conduz à excelência, mas, sim, as subordinam ao fácil, ao que em longo prazo (e também em curto) decepciona. Uma sociedade sentimental é uma sociedade que fica nas mãos da causalidade. Nela, as pessoas querem deixar de ser responsáveis, enquanto navegam na turva “tentação da inocência”, que consiste em responder que não se queria fazer mal, quando por seguir o que se sente se comete uma injustiça contra a realidade do mundo. O infantilismo (medo de crescer, de assumir responsabilidade) é a grande enfermidade de nosso tempo.

Fico olhando a foto do G7, aquela na praia, enfatizando o distanciamento social, mesmo em ambiente aberto e o que me incomoda mais é ver novamente como o senso de decoro foi destruído no ocidente. Uma das marcas da modernidade, mas que a pandemia só agravou (ou revelou).

Decoro é considerado algo ultrapassado, que não tem lugar no mundo de hoje. Todos temos que ser livres para nos comportarmos como quisermos, desde que seja do jeito que os totalitários da modernidade prescrevem, claro.

Aquele abraço no meio de plástico, a máscara com abertura para comer, o governador acenando para um shopping vazio e por aí vai. Tudo extremamente cafona, feio, sem sentido. O bom senso é destruído, mas não é só isso. O decoro está no coração da nossa dignidade. Quando abrimos mão do decoro, abrimos mão também da dignidade, o que é um passo enorme para desumanização da pessoa.

O século XX nos ensinou bem demais o que acontece quando a pessoa deixa de ser vista como um ser humano.

O que ando lendo?

1. Como sempre, 2 ou 3 artigos da Suma Teológica todo dia. Projeto de leitura que durará uns 5 anos. Estou no ano 3. O tema desta semanas são as potências do uso e da ordenação. Bem aristotélico esta parte.

2. A Revolução Voegeliana. Uma análise da obra de Eric Voegelin por Elliz Sandoz, um de seus alunos de doutorado. Li o capítulo que trata da Nova Ciência da Política, em que Voegelin faz sua crítica às ciências sociais positivistas e coloca uma de suas teses fundamentais: não se deve estudar a sociedade como se fosse um objeto distante. O homem participa da realidade e a entende por auto-participação.

3. A Violência e o Sagrado. Prosseguindo a aventura de Rene Girard sobre a origem da cultura, no capítulo V ele faz um estudo sobre a peça de Eurípedes, As Bacantes. O bacanal da peça nada mais é que um ritual de sacrifício disfarçado, conduzido por um deus que restaura a paz em uma sociedade pela morte de Penteu.

4. As Ilusões Perdidas. Comecei o clássico de Balzac. No momento, o poeta Lucien corteja a bela Madame de Bergeton e é introduzido na alta sociedade da pequena cidade em que vive.

5. A Vida da Virgem, de São Máximo Confessor. A mais antiga biografia de Maria que chegou até nós.

Está bom, né? Parece que leio muito, mas na média devo ler uma hora e meia por dia. Só que o faço todo dia.

Nivaldo Cordeiro em seu curso sobre Dom Quixote, argumenta que Cervantes faz uma crítica ao Estado moderno, especialmente na questão da administração da justiça. Na tradição clássica e medieval admitia-se a superioridade do direito divino ou natural sobre costumes, jurisprudência só para então chegar no direito positivo, que devia estar subordinado ao primeiro. A modernidade exclui todas as instâncias superiores e diviniza o direito positivo como fonte de toda justiça.

O resultado é que o estado vai se tornando cada vez mais eficiente em prender as pessoas e chega na situação de ter regiões do mundo com pelo menos 5% da população masculina encarcerada e subindo. Significa que alguma coisa não está funcionando, pois a sociedade se torna cada vez mais violenta, mesmo em países do chamado primeiro mundo.

Para Nivaldo, o grande problema da justiça do estado moderno é que ela ignora completamente o perdão, parte da justiça divina e se torna, na realidade, uma justiça vingativa.

Parece uma utopia imaginar que a justiça cristã, com base no perdão, poderia funcionar melhor do que a justiça positiva vingativa do estado. Só que na prática, esta também parece não estar resultado em uma sociedade melhor.

Tem solução?

Terminei de reler Didascalicon, pequeno tratado sobre a educação escrito por Hugo de São Vítor no século XII. Sério. Século XII. E o livro é impressionante.

De forma didática e clara, o monge expõe os princípios que estão na base da verdadeira educação. Há ali uma lógica infalível, que torna claro o que foi escondido pelos pedagogos da modernidade em uma linguagem técnica e obscura. O verdadeiro aprender a aprender está nas páginas desta pequena maravilha.

Há algumas partes que já não se aplicam, como a divisão das artes mecânicas, mas no cerne o livro é mais que atual, é urgente.

O que chamamos de educação é justamente seu oposto, um conjunto de práticas e mecanismos que nos afastam do conhecimento, da capacidade de expressar nossas idéias, de fluir nosso pensamento. Hoje aprendemos a executar técnicas específicas, um discurso pomposo e obscuro, próprio para iniciados, e nos conformar com as teorias sociais da moda.

Nada a ver com o que São Vítor nos apresenta. Claro que ele coloca a teologia, e as Sagradas Escrituras, no topo do conhecimento, mas mesmo abstraindo do aspecto religiosos, o que sobra é ainda um grande tesouro da filosofia, física, matemática e tantas disciplinas que nos ensinam realmente. Sobretudo sobra amor ao conhecimento e a necessidade de conhecer para termos uma vida melhor.

Encontrei no youtube um curso do Nivaldo Cordeiro sobre Dmn Quixote, a imortal obra de Cervantes. Já tinha assistido anos atrás um curso dele sobre Dr Fausto, de Thomas Mann, que achei excelente.

Na primeira aula, Cordeiro chama atenção para algo que deveria ser óbvio, Cervantes escreve uma obra católica. Ele mesmo foi um soldado ferido na batalha de Lepanto, onde fez parte da esquadra que combateu os muçulmanos e por 5 anos foi prisioneiro dos mouros em Argel.

Ao recapitular alguns intérpretes da obra, chama atenção para a diferente visão de dois grandes nomes da filosofia espanhola: Ortega Y Gasset e Miguel Unamuno. Para Cordeiro, só Unamuno entendeu a dimensão católica da obra. Ortega, muito influenciado pelo esteticismo de Goethe, que enxergava a tradição germânica como uma das raízes da Europa ao invés do cristianismo, deixou de perceber este significado essencial da obra. Erro que também sofreria séculos depois Vargas Llosa, que enxergou bem o livro como feito para o século XXI, mas o associou ao triunfo do liberalismo, que tem para ele a força de uma ideologia.

Através do humor e da loucura do cavaleiro andante, Cervantes disfarça uma crítica profunda tanto ao Estado nacional que se instalava na Europa quanto à Igreja modernizada. Ele enxergava na expulsão dos judeus e dos mouros convertidos na península ibérica uma proposta de limpeza racial, que era incompatível com o ideal cristão. Era o prenúncio da idéia demoníaca de uma raça pura, que ainda promoveria uma grande tragédia no mundo.

Nem sempre precisamos fazer algo de extraordinário para que um dia fique em nossa história pessoal. Muitas vezes as coisas mais simples geram sensações profundas, ainda mais quando percebemos isso no decorrer do dia e refletimos a respeito. É aquele sentimento de estarmos sendo abençoados.

Ontem foi um dia assim. Desde que acordei e fiz minha leitura diária da Suma Teológica, um poderoso instrumento para pensarmos melhor, tudo aconteceu numa seqüência natural, sem muito planejamento. Café com a esposa na Infinu, algumas compras de presentes, almoço simples em casa, uma saída para o shopping Terraço, onde tem uma boa área aberta, uma saída com a esposa à noite, uma chopperia artesanal e o fim de noite novamente na Infinu, tomando o tradicional vinho branco e observando a alegria ao redor. Para coroar, o Red Sox ainda ganha dos Yankees.

Não teve nenhum evento, coisas triviais. Sei que no meio da pandemia tem gente que vai torcer o nariz, respeito. Mas somos seres sociais e permanecer em casa por tempo indeterminado é um preço grande demais a se pagar em um ambiente de tanta incerteza. Neste ponto estou confiando que a reinfecção é realmente rara e que mesmo assim teremos mais facilidade na produção de anticorpos. Cientificamente provado? Questão errada. A ciência não prova nada, apenas levanta hipóteses mais prováveis. Aliás, ao que parece a ciência está na origem desta pandemia, não é Doutor Fauci (ou Fausto)?

Enfim, cada um que julgue seus riscos e viva sua vida. Estou tratando de viver a minha e nela sempre vai incluir a liberdade.

Tchau sábado 5 de junho de 2021, foi um prazer te conhecer.

Andrei Rublev foi um artista russo que pintou vários ícones maravilhosos no início do século XVI. Há toda uma teoria sobre os ícones, que tem muito mais a ver com o sagrado do que as belas pinturas do renascimento, como as de Michelangelo e Da Vinci, mas fica para outro texto.

Aliás, sobre Rublev recomendo o clássico do Tarkovisky.

Um dos ícones pintados por ele é esse em que retrata a trindade, centro da fé cristã (o Deus que ao mesmo tempo é três). Uma explicação detalhada sobre o significado da obra encontra-se aqui.