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Não sei se vocês sabem, mas não existe prisão perpétua no Brasil. A pena máxima é de 30 anos, mas para consegui-la é preciso se esforçar bastante. Tenho um amigo que matou o outro a facadas, e avançou para cima das esposa do morto. Foi contido, feriu quem o prendeu. Disse que seu objetivo era arrancar os olhos de sua vítima. Homicídio duplamente qualificado. Pegou 18 anos.

Com as regras atuais, mesmo pegando 30 anos, é possível sair com 1/6 da pena. Cinco anos, portanto. Mesmo antes, ainda pode ser beneficiado com os indultos. Significa que os presos serão soltos um dia. Que voltarão para as ruas. 

Vejo que muitos defendem que as prisões sejam uma versão do inferno. Temos que ter cuidado com o que desejamos pois uma das características do inferno é produzir demônios. Demônios que serão soltos, lembro. A barbárie que está acontecendo nas prisões vai ganhar as ruas e dessa vez estaremos na linha de frente.

Quando você confina muita gente no mesmo espaço, com sofrimento, gera fortes vínculos. Socializa. Essas quadrilhas formadas dentro das prisões serão exportadas para as cidades brasileiras. Assim surgiu o comando vermelho e o PCC, assim surgirão outras. Por isso a superlotação de celas é tão nocivo. 

Vocês estão comemorando 25 presos mortos, mas esquecem que nesse processo se formaram 200, 300 demônios sem nenhum limite. Se acham que já eram perigosos antes, podem ter certeza que sairão muito pior do que entraram. 

Por fim, uma segunda constatação. Se o estado brasileiro não consegue manter a ordem e segurança dentro de um local confinado, com todo seu poder de polícia, enfrentando 500 presos, como vocês imaginam que vão manter a ordem fora das prisões? Não é que a polícia não tenha competência para lidar com rebeliões, o problema é de outra natureza. Ela não tem como fazer isso sem enfrentar os presos, o que inevitavelmente irá gerar mortos. Tudo que a malta dos direitos humanos e entidades de esquerda querem é ver cadáveres de um lado e a polícia do outro lado, retomando sua narrativa Focaultiana. Nenhum comandante quer pagar esse preço.

Estamos jogados a nossa própria sorte. Não comemoro nenhuma das mortes pois sei que os que estão matando estarão um dia entre nós. E piores do que jamais foram. 

Na cena final de La Dolce Vita, o clássico de Frederico Fellini, a beleza, na forma de uma menina, tenta se comunicar com Marcello, lembrá-lo de seu ideal, do desejo de escrever um livro. Ele não consegue escutá-la. Sua alma se fechou, não suportou que seu modelo de vida, tenha se suicidado e matado os próprios filhos. Em um mundo sem sentido, que Deus não está presente, melhor seria não ter nascido. 

Marcello desiste de buscar qualquer orientação. Se entrega à barbarie, ao grotesco, à feiura. Ele ainda não sabe, mas seu caminho é da auto destruição. 

La Dolce Vita talvez seja mais atual hoje do que quando foi filmado. Há sempre um carácter profético na verdadeira arte.

 

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Pensamentos Soltos

O Pink Floyd tinha uma elegância ao tocar que nunca foi igualada. Dark Side of The Moon é o mais perfeito exemplo.

Se eu pudesse escolher de quem receber o dom de escrever, escolheria Chesterton. Ninguém tratou de temas tão sérios de forma tão alegre quanto ele.

A verdadeira arte nos coloca acima de nossas condições social e existencial. Os criadores medíocres são incapazes de sair de sua prisão espaço-temporal.

Quando leio Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e São Tomás, vejo as coisas com mais clareza. Exatamente o oposto acontece quando leio Descartes, Espinoza e Kant. É uma distinção do filósofo saber se expressar com clareza?

A política trata do confronto imediato, das necessidades urgentes. Infelizmente, damos atenção demais a ela e esquecemos da cultura, onde o verdadeiro confronto acontece e se define a política que virá.

Tudo bem que T S Eliot matou a charada quando disse que o homem não suporta muita realidade. Mas o homem moderno já passou dos limites e não acredita em realidade nenhuma.

O jornalismo atual se tornou um enorme desfile de cretinos, com perdão dos (poucos) bons nomes que temos por aí.

O progressismo já perdeu sua impulsão. Ainda está subindo, mas pela inércia. Logo começará a cair, cada vez com mais velocidade. Quem continuar abraçado a ele vai desabar junto.

Em termos de comportamento, o mundo mudará muito nos próximos dez anos. É inevitável.

Você nunca vai impedir o inimigo de te atacar pela recusa em se defender. Nem mesmo cantando Imagine (a letra mais cretina já feita).

Em um confronto entre uma cultura(?!) que não quer ter valores e uma que os tem firmemente defendidos, esta engole a primeira.

Espiritualidade sem religião é uma ilusão que não tem como durar por muito tempo. Por mais meditação que se faça.
O homem que recusa a se subordinar a alguns princípios termina subordinado a seus desejos. É a pior escravidão pois o senhor nunca descansa.

O destino do homem é se unir a Deus. Ele nunca encontrará a paz enquanto se mantiver separado.

Em seu primeiro dia o Papa Francisco pediu que rezássemos por ele. Foi seu melhor conselho.

Em matéria de fé, dei uma imensa volta para terminar onde comecei. Não fui o primeiro a tentar essa jornada e, certamente, não serei o último. Falta pouco, agora.

SAMSUNG

Para quem começou a escutar música nos anos 80, no Brasil, o conceito de single não fazia muito sentido. O nosso mercado era dominado pelos LPs, e quando singles eram lançados por aqui, normalmente na forma de EP, o preço era o mesmo. Qual era o sentido então de pagar o mesmo por apenas 2 músicas? Além do mais, o LP chegava no Brasil muito depois de seu lançamento.

Com o Spotify(e similares) é possível acompanhar os lançamentos lá fora. Tem uma aba chamada new realeses que mostra diariamente o que está sendo lançado. Só lamento que não consiga excluir o mercado brasileiro porque o nível de porcaria é acima do aceitável. De qualquer forma, pela primeira vez estamos poder acompanhar o lançamento dos singles e tem sido uma experiência muito interessante. O single é um um convite para o disco que está para sair.  Time for Bedlam, do Deep Purple, por exemplo, me deixou muito curioso pelo disco que está para sair. Faz tempo que não escutava uma música tão boa da banda, que sempre foi uma das minhas preferidas.

Está sendo bem legal acompanhar o mercado por meio dos singles e já tenho uma lista dos que mais me chamaram atenção ano passado. Finalmente o conceito passou a fazer sentido para mim e posso sentir um pouco do que os ingleses sentiam nos anos 60, a era de ouro dos singles.

A Chacina de Manaus

O que aconteceu em Manaus, uma briga de quadrilhas dentro de uma prisão, mostra o fracasso do estado. 

Com certeza, se tivessem contratado uma ONG que ensinasse ballet e teatro nada disso teria acontecido. Afinal, aqueles pobres carentes de liberdade são vítimas do sistema, foram obrigados ao crime por essa sociedade capitalista machista branca cristã e opressora. Faltou amor para aqueles meninos!

Escrevo essas linhas escutando imagine em looping, com uma camisa branca escrita paz e lágrima nos olhos.

Falta amor ao Brasil! 

Feliz 2017!


É besteira pensar o 1º de Janeiro como uma data qualquer. Cientificamente não há diferença entre este dia e outro qualquer, mas simbolicamente é bem diferente; o ano novo marca o início de um novo ciclo.

Temos uma pré-disposição de considerar o simbólico como algo artificial. Os símbolos são a forma como enxergamos a realidade, eles possuem mais verdades embutidas que a maioria das teorias científicas que nos vendem como verdade. A tendência muito moderna de desprezar os símbolos afasta o homem da realidade mais profunda, do que se chamou de sagrado.

Praticamente todas as tradições religiosas possuem símbolos de renovação. A vida acontece em ciclos, como até mesmo um filósofo atormentado como Nietzsche percebeu. Por isso, é tão comum, mesmo nas civilizações mais remotas, cerimônias anutais de renovação. Antes que pensem que se trata de simples convenção, observem bem o cosmos. Os ciclos estão por toda parte.

As celebrações pagãs do 1º de janeiro refletem os ritos sagrados de renovação. Estamos sempre nos recriando e vivendo novamente. Não é por acaso que tantas situições se repetem e nossa vida mais parece uma sucessão de elipse do que uma linha reta, como perceberam cineastas como Terrence Malik (Tree of Life, To The Wonder). Se no fim da vida conseguimos percever uma trajetória, durante só vemos esses ciclos. As teorias lineares da história nunca vão nos satisfazer pois só perceberemos a história com um sentido, com uma narrativa linear, quando ela terminar e não adianta muito especular sobre seu fim. Qualquer teoria sobre o sentido da história está destinada ao fracasso.

O homem simples, e por isso mesmo mais autêntico, sabe disso. Vive sua vida dentro dos ciclos, celebra o ano novo com espírito religioso, ecos do sagrado, e segue adiante. São os homens complexos, que fazem de tudo para fugir da realidade, que não conseguem entender nada disso. São monotemáticos, subordinam toda vida a um único aspecto, como a política ou o progresso, e vivem a vida como se estivessem em alguma missão civilizadora. Transformam o mundo em um caos. 

Meu caro leitor, seu mundo provavelmente não vai mudar radicalmente no 1º de janeiro, mas isso não é motivo para não celebrá-lo. Um novo ciclo se inicia e, mesmo que não seja muito diferente do anterior, será algo de diferente. Como os antigos perceberam, os ciclos se repetem, mas sempre modificados de alguma forma. 

Antes de terminar, uma última reflexão. Há acontecimentos que atravessam os ciclos, que rompem com a repetição e podem nos fazer mudar significativamente. Mas quantas vezes isso realmente acontece em nossas vidas? E, mesmo que radical para nós, será para a humanidade? À rigor, só houve um acontecimento que realmente atravessoui todos os ciclos e mudou o destino do mundo, mas essa história é melhor contada no natal. Deixemos para outra ocasião.

Portanto, um feliz ano novo a todos. Lembrem-se, é mais um ciclo, mas não significa que estejamos condenados a repetir os mesmos erros. Sejamos pelo menos criativos e experimentemos novos!

A trocadora

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Outro dia entrei no ônibus que sai do metrô de Botafogo, para a Urca. Como sempre, uma fila enorme para entrar e o ônibus foi lotando enquanto a silenciosa procissão passava pela roleta. Eu já estava sentado quando a cobradora (ainda existem, acreditem) exclamou alto para todos ouvirmos:

_ Até que enfim, alguém me deu boa tarde!

Realmente, tínhamos todos passado por ela sem trocar uma única palavra. Estamos sempre tão concentrado em nossas coisas que nem lembramos que existem outras pessoas no mundo, mesmo estando no meio de uma multidão, o que não deixa de ser curioso. Fiz uma anotação mental para não deixar acontecer novamente.

Alguns dias depois peguei o mesmo ônibus, e lá estava ela novamente. Que sorte a minha! Limpei a garganta e quando chegou a minha ver de passar disse com alegria:

_ Bom dia!

E foi só. Até hoje ela não respondeu.