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A nova direita e suas brigas

Um dos assuntos de 2018 é a tal divisão interna da nova direita, seja lá o que for. Na verdade o termo parece se referir a tudo que não é esquerda, colocando no mesmo saco gente que não se bica. Tudo isso porque parte de um erro inicial, que só há duas posições políticas possíveis. Como nessas coisas quem define a linguagem é a esquerda (ainda), direita virou um termo para se referir ao outro, seja lá quem for. Pode ser um desses malucos de intervenção militar, um conservador cristão, um reacionário, um libertário, um liberal e até mesmo nazistas.

Ora, para ter divisão interna, tem que ter tido alguma unidade antes.

A grande questão dos últimos anos é que terminou o monopólio da esquerda na discussão pública, e isso se deu principalmente por causa da internet. Já entenderam que a única forma de voltar ao status quo é restringir a rede. Os globalistas já toparam a empreitada, como demonstra as ações recentes do facebook e twitter. É errado chamá-los de comunistas. São globalistas. Acreditam no fim do nacionalismo e submissão a entidades supra-nacionais. Aliás, a disputa Trump e Hillary não foi uma disputa entre direita e esquerda, foi entre globalistas e nacionalistas. Pela primeira vez os globalistas tiveram uma derrota séria e por isso o desespero contra Trump.

Retomando. Com o fim do monopólio da esquerda, uma caixa de pandora se abriu. Tem gente de tudo que opinião e ideologia. Só que os meios de comunicação tradicionais são controlados ainda pela esquerda, que passa o dia patrulhando os que rotularam de nova direita. Ao esquerdista, tudo pode. Falar que vai matar, estuprar, pedir agressão, assassinato, o escambau. Silêncio na mídia. Mas ai do direitista que der uma brecha, que falar uma frase impensada. A patrulha se agita e parte para cima como uma matilha de lobos que viu carniça. O pior de tudo é que muita gente boa, que não comunga da seita da esquerda, vai junto e ajuda a linchar.

A conduta mais prudente é observar e tirar ensinamentos. Tem gente ruim dizendo coisa boa? Tem. Tem chiliquento editando bons livros? Tem. Tem gente boa dizendo besteira? Tem. E daí? São Tomás já dizia para pegar o que é bom, seja lá de onde venha. Não façam ídolos, não se apressem em defender que não precisa, pois sabem se defender muito melhor sozinhos. Na maioria das vezes a defesa dos seguidores tem causado mais constrangimento do que ajudado.

Eu não vejo problema nenhum em ver certas brigas na internet. Pode ser até depurador. Mas convém evitar o orgulho dizendo para se meter e mostrar que é o gostosão. Normalmente é pura vaidade dos figurões e, principalmente, dos seguidores.

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Saudáveis obsessões

Para entender do que estou falando, cliquem aqui.

Acabei de definir minha obsessão literária (ficção) para 2018. O eleito foi Tolkien, especialmente uma releitura cuidadosa de O Senhos dos Anéis.

Em não ficção estou tendendo à obra de um dos dois maiores pensadores do século XX (o outro é Voegelin): Joseph Ratzinger.

Música estou tendendo ao Iron Maiden, retomando minha paixão da adolescência.

Cinema está bem indefinido ainda. Talvez Angelopopoulos.

Blog em 2018 está em Bogotá

Olá pessoal,

Desculpem pelo período de silêncio, mas o autor deste blog se mudou para Bogotá, onde vai residir por um ano. Foi tudo de última hora, sem tempo para planejamento, o que resultou numa paralisação das atividades por aqui.

Mas isto já é passado. Estou instalado em Bogotá.

Estou registrando minhas impressões no Medium.

Bom 2018 a todos!

 

 

 

Esta semana o mundo twitter caiu em cima da cabeça do comentarista político da Globo News, Guga Chacra. Acho um reducionismo tratá-lo no mesmo nível de um simples agente ideológico de esquerda. Acho-o sim capaz de mudar de opinião e, em princípio, vejo nele um espírito investigativo, tentando entender a realidade.

O problema é que ainda tentamos entender a coisa no corte direita x esquerda. A coisa é mais sutil. Pessoas como Guga Chacra e Caio Blinder pertencem a outro corte, o que coloca de um lado globalistas (não confundir com globalização) e anti-globalistas, ou seja, nacionalistas. Só assim começaremos a entender o pensamento de Chacra e Blinder sobre a Polônia.

Para os globalistas, o nacionalismo é algo a ser ultrapassado. Foi graças a ele que tivemos as grandes guerras do século passado e que os conflitos ainda existam. Não vou me estender aqui, mas chama atenção que eles pouco tratam do problema da guerra civil. Se todos fôssemos uma grande nação, como sonham, o que nos impediria de ter uma grande guerra civil? O fato é que na cabeça deles, todo nacionalismo é pernicioso. Não por acaso consideram que nacionalismo e fascismo é a mesma coisa, isso sim um erro de compreensão política monstruosa.

Para ser honesto, Guga Chacra não chegou sozinho na conclusão que tinha uma manifestação nazista na Polônia. Ele simplesmente repetiu o que está sendo propagandeado pelos jornais globalistas da Europa, como o Guardian. O pecado da Polônia é ser, hoje, o país mais nacionalista da Europa. Pouco importa que o país tenha verdadeiro horror a qualquer tipo de totalitarismo, não se pode é retomar o nacionalismo na Europa depois de tudo que foi feito para se implantar a União Européia.

Guga Chacra viu o release do Guardian e não teve dúvidas, até porque a grande fonte de nosso jornalismo internacional são os jornais internacionais, e compartilhou o link do jornal, sobrescrevendo sua manchete. Sua irresponsabilidade foi de não questionar o Guardian, não ter uma leitura mais crítica do que aconteceu. E porque não o fez? Porque compartilha da mesma opinião básica do jornal e da maioria dos jornalistas. Globalismo é bom; nacionalismo é ruim. O globalismo é a nova promessa de resposta de todos os problemas do mundo.

A coisa é mais sutil, e perigosa, que uma distorção de um fato. O problema está na lente que o jornalista enxerga tudo que acontece no mundo. Eu não sou nenhum fã do nacionalismo, mas comparado com o globalismo prefiro-o mil vezes. A idéia de um governo mundial é o caminho mais seguro para um totalitarismo mundial. Quem poderia nos salvar de um regime despótico de alcance global? Marcianos?

Guga Chacra não vai pedir desculpas. Ele não acha que disse nada errado. Se os poloneses estavam marchando pela Polônia, só podia ser uma manifestação nazista. Para ele, e outros como Caio Blinder, que partiu em seu socorro aumentando a bobagem colocando a Hungria no saco, o verdadeiro problema é a virulência das redes sociais. Onde vamos chegar se um jornalista não pode nem falar bobagem sem ser contraditado publicamente?

Terminei o Livro XIX de A Cidade De Deus, do Santo Agostinho.
 
Em seus capítulos finais ele discute a questão da República. Entendendo a república como coisa do povo, ele demonstra que pelos conceitos apresentados por Cícero, Roma não teria sido uma república. Tudo porque Cícero definia povo como um conjunto de pessoas com direitos reconhecidos entre si. Como a base para o direito é a justiça, só poderia haver povo se houvesse justiça. Ora, o domínio de Roma sobre as outras cidades era injusta porque baseada no argumento do mais forte, uma posição rechaçada desde Platão. Assim, não tendo justiça, não havia direito e, portanto, não poderia haver povo. Sem povo não se pode falar em República.
 
Agostinho, entretanto, propõe outra idéia para povo. Ao invés de direito, seu fundamento estaria no amor comum. Há de se falar em povo quando um conjunto de pessoas amam entes comuns; O povo será melhor ou pior à medida que amem coisas mais elevadas ou mais baixas. A república, sendo expressão desse povo, refletirá a qualidade desse amor.
 
E daí? Para que serve a leitura desses textos antigos?
 
Bem, tentemos trazer para nossa realidade. O que podemos dizer sobre o nosso Brasil?
 
Evidentemente, pelos conceitos de Cícero, também não somos uma república, pois falar em justiça no país chega a ser piada. No entanto, o colocação do direito como base do povo está bem no espírito kantiano dos nossos progressistas que, em última análise, colocam a Constituição como principal fonte de justiça (bem interpretada pelos guardiões do STF, claro!). É um ideal de muitos que nossa república seja orientada por uma constituição interpretada por uma elite iluminada, o que contaria qualquer definição de república como coisa pública ou coisa do povo. Seríamos, no máximo, uma coisa dos intelectuais ou das elites. Uma espécie de “res-elites”.
 
Se formos para a proposta de Agostinho, temos que responder o que define o povo brasileiro em termos de amor. O que amamos em comum? Deus? A família? Futebol? Os prazeres do carnaval?
 
Quanto mais baixos forem os amores dominantes, mais baixo será nosso povo e, em consequência, menor a qualidade da nossa republica. Por esta linha de pensamento, nosso problema não é e nem será resolvido no nível político. Precisamos ordenar, em sequência, nossas vidas, nossas famílias, nossa comunidade para chegar na nossa sociedade. Não tem político que resolva uma coisa dessas.
 
Quando buscamos em um texto clássico uma iluminação para, pelo menos, formular questões como essas, estamos nos inserindo em uma cultura, incorporando uma tradição. Há os que pensam que cultura é exposição de rabiscos em museus ou peças de gente pelada imitando macacos. Isso não é cultura, é pirraça
 
Em algum momento da vida temos que escolher o que desemos para nós e nos tornarmos adultos. 
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Como superar uma enorme tragédia pessoal?

Nesse vídeo comento o filme (COM SPOILER).

Não me envolvi nas discussões sobre o julgamento do senado sobre o afastamento do Sr Aécio Neves porque, para variar, o ambiente de discussão está tão contaminado pelos lugares comuns que teria de ter uma limpeza antes de qualquer coisa. A coisa foi colocada como uma disputa sobre impunidade, do senado protegendo um dos seus.

Pode até ter esse componente, mas não é o principal. O maior é colocar um limite ao ativismo judicial. Sim, nossa constituição é uma aberração, feita justamente para proteger os políticos. Mas não é de competência do STF mudá-la e sim cumpri-la.

O senador só estava afastado por uma interpretação para lá de elástica das previsões penais. Tenho muito mais medo do STF do que do restante da política brasileira. Aliás, me chama atenção que achem que o STF não é uma corte política, que seus membros são escolhidos por sua competência.

Esse diálogo de A Man For All Seasons resume muito bem a questão. O futuro genro de Thomas More defende que ele prenda um sujeito imoral sem ter previsão legal. More se recusa pois ele não infringiu, ainda, nenhuma lei.

William Roper: So, now you give the Devil the benefit of law!

Sir Thomas More: Yes! What would you do? Cut a great road through the law to get after the Devil?

William Roper: Yes, I’d cut down every law in England to do that!

Sir Thomas More: Oh? And when the last law was down, and the Devil turned ‘round on you, where would you hide, Roper, the laws all being flat? This country is planted thick with laws, from coast to coast, Man’s laws, not God’s! And if you cut them down, and you’re just the man to do it, do you really think you could stand upright in the winds that would blow then? Yes, I’d give the Devil benefit of law, for my own safety’s sake!