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Reflexões

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O problema de ler muito é que de vez em quando a gente se confunde e não lembra mais o que se leu e onde. Pois bem, em algum lugar eu li que a democracia é baseada no direito à liberdade e na sabedoria de não utilizá-lo. É mais ou menos assim: se todos usarem na plenitude o direito de se expressar livremente a sociedade se torna impossível. Não significa que o direito deve ser limitado pelo estado, mas que as pessoas devem abrir mão desse direito em favor da convivência e até mesmo como ato de amor ao próximo. 

2

Ainda sobre liberdade de expressão, o verdadeiro teste da tolerância é aceitar o direito de alguém expressar algo que você discorda frontalmente e que até mesmo lhe seja ofensivo. Saber até onde você pode aceitar essa proposição é saber até onde você aceita a liberdade de expressão. Eis a minha relação, por exemplo, com o porta dos fundos.

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O cristianismo tem na sua essência o livre arbítrio e o modelo de santidade. A boa nova foi a superação do caráter mandatário do Deus do velho testamento pelo caráter de convite. Jesus não nos obriga, ele nos convida. Não é por acaso que símbolos como casamento, festa e ceia apareçam tanto nos evangelhos. O problema é que sempre podemos recusar um convite e é justamente a responsabilidade que essa decisão implica que causa tanto desconforto ao homem hodierno. Muitas pessoas preferem um conjunto de normas mais impositivas e um modelo mais mundano, mais fácil de se identificar. Elas não querem efetivamente uma fé, querem uma desculpa para lidar com suas consciências.

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O politicamente correto é além de tudo perigoso. Imagine que um determinado grupo minoritário, ou seja, todo mundo, tenha uma associação comprovada com determinado tipo de crime. Em nome do politicamente correto não se pode concentrar os meios do estado para investigar e vigiar membros desse grupo, mesmo que a probabilidade de que esteja ali o problema seja elevada. Em nome de uma idéia reconfortante, deixa-se de lado a realidade. E pessoas morrem por causa disso.

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Dentre as coisas mais sérias ditas por Jesus está a afirmação de que ele é a verdade. Poucos pensam na recíproca. 

Quase todo jornalismo repete até exaustão que foi um ataque de fundamentalistas radicais contra a liberdade de expressão. Bem, quando o jornalismo começa a repetir em uníssono os mesmos jargões o meu desconfiômetro começa a disparar. Será que foi mesmo um ataque à liberdade de expressão?

Fico com a impressão que os dois terroristas muçulmanos, que me parece ser a expressão mais correta porque são terroristas e muçulmanos, alvejaram pessoas reais e não liberdade de expressão. Estavam cumprindo uma fatwa que já existia há algum tempo e queriam mesmo era vingar Alá, matando os chargistas do jornal. Se duvidar nem sabem o que é a tal liberdade de expressão.

Sabem o que é atacar a liberdade de expressão? É o governo Obama mandar prender um cineasta por ter feito um filme que segundo terroristas seria a motivação para o ataque à Bengazi, tese já rejeitada. É os governos ocidentais tomarem ações para intimidarem jornalistas e artistas de criarem qualquer coisa que possa ser considerada uma provocação à sensibilidade desses malucos. Sei não, acho que apenas os estados são capazes de atacar a liberdade de expressão.

No caso dos chargistas da Charlie Hebdo, foi justificativa para saciar um desejo de sangue humano. Tudo que esses loucos querem é uma desculpa: se não for uma charge será um filme, uma música, um penteado. Ou vocês acham que eles estariam vendendo quibe em uma padaria se a Charlie Hebdo não tivesse publicado aquelas charges? Não se deixem enganar, só há uma forma do ocidente não ofendê-los:converter-se ao islã. Tentaram há alguns séculos, estão tentando novamente. 

Imaginem uma pessoa sozinha numa ilha deserta. Para sobreviver, ela passa o dia pescando. O resultado desta pesca são 3 peixes diários.

Um belo dia, essa pessoa resolve economizar um peixe. Come dois e guarda o terceiro. No dia seguinte, faz a mesma coisa. Come dois e guarda o terceiro. Agora possui dois guardados. No terceiro dia não pesca. Usando os dois peixes que guardou para se alimentar, usa o tempo para construir uma rede. No quarto dia, pesca 10 peixes.

Assim funciona uma economia, o resto é mágica. Para enriquecer de verdade, um país precisa aumentar sua produtividade, o que exige investimentos. Em outras palavras, ele precisa retirar recursos da satisfação imediata (consumo) para acumular o famoso capital (investimento). O instrumento para isso se chama poupança.

Consumidores devem poupar para liberar recursos para investimentos através do sistema bancário. O governo deve poupar para tirar menos dinheiro da sociedade, o que implica em gastar menos do que arrecada. O tempo de privação de consumidores e governos será recompensado posteriormente com um aumento da produtividade que gerará uma maior riqueza. Ou seja, para crescer é preciso uma certa dose de sacrifício da geração presente.

Nas últimas décadas abraçou-se a ilusão que se poderia fazer a mesma coisa simplesmente distribuindo dinheiro criado (usando o artifício dos juros baixos e criação de créditos eletrônicos). O resultado é que a economia perde a orientação e começa-se a fazer uma série de investimentos que em situações normais não seriam feitos, gerando desperdício dos tais escassos recursos disponíveis.

Uma hora a situação se torna insustentável porque passa a existir a disputa por estes recursos escassos, como trabalhadores e máquinas, gerando aumento generalizado dos preços. Para evitar a inflação, os governos elevam os juros, tentando tirar dinheiro da economia. As dívidas sobem, obrigando pessoas e empresas a se ajustar a nova situação, diminuindo o consumo. Se os salários não diminuirem, o resultado será sempre o desemprego. O próprio Keynes sabia disso e recomendava que deixasse a inflação corroer os salários para que a população não percebesse o que estava acontecendo.

Isso está acontecendo na Europa e nos Estados Unidos há 5 anos. E vai durar por bastante tempo. Só que existe um detalhe, são países ricos, que possuem gorduras para queimar. E quando a recessão acontece em um país pobre? Estamos vendo agora, infelizmente de dentro.

Aécio Neves declarou que não vão conseguir empurrá-lo para a direita. Foi o suficiente para deixar alguns puristas em pânico e ameaçar, pela enésima vez, rachar qualquer tentativa de oposição coesa. Sério, vocês tem problemas. Mas vamos por partes.

Deixa eu contar uma coisa para vocês. O PSDB é um partido de esquerda. Sério. O PT gosta de dizer que são de direita, etc, mas não se deixe enganar. São de outra natureza, na linha dos partidos social-democratas europeus, do partido democrata americano. Algo na linha do Tony Blair e Bill Clinton. Pesquise um pouco sobre o socialismo fabiano e vai saber o que está no DNA do PSDB. Mesmo assim, Aécio Neves ainda está mais próximo do centro do que o Geraldo Alckmin, e bem mais do que o José Serra. 

Segundo, Aécio foi colocado pelo repórter petralha em uma armadilha. Quando fez a pergunta sobre direita, ele estava se referindo a golpe militar. Sei que alguns de vocês sonham com isso, mas a esmagadora maioria dos brasileiros, eu inclusive, não queremos golpe nenhum, muito menos militar. Quando Aécio disse que não iriam empurrá-lo para a direita, é sobre essa direita que está se referindo. Ah, mas ele tinha que explicar o que é direita. Vocês realmente não aprenderam nada com a nossa edição jornalística. O que o jornalista queria era uma manchete colocando o Aécio junto com aqueles que pedem golpe militar. Isso ele não conseguiu.

Sei que gostariam de ter um Ronald Reagan para enfrentar o PT, mas deixa eu contar um segredo, não contem para ninguém: não existe um Ronald Reagan no Brasil. Sabem por que? Porque para existir Reagan foi preciso que existisse Russel Kirk, Milton Friedman, Hayeck, Mises. Ou seja, pensadores que colocaram certas idéias em circulação 40 anos antes. Só então existe condições para surgirem líderes políticos que sigam essas idéias.  

Nossos líderes de hoje são produtos de pensadores dos anos 60 e 70, quando a esquerda conquistou a hegemonia na cultura brasileira. Tirem, portanto, o cavalo da chuva. O que podemos ter agora é Aécio Neves, e deem graças a Deus porque poderia ser tudo da linha do José Serra. Infelizmente só agora o pensamento conservador começa a circular pelo Brasil, o que implica que um líder de direita só terá como aparecer daqui a uns vinte anos.

Como sempre gosto de repetir, a política é a arte do possível. E o possível no momento é Aécio Neves. 

Mundo superpovoado?

Aposto que se fizerem uma pesquisa de percepção, perguntando às pessoas se consideram o mundo superpovoado, a esmagadora maioria consideraria que sim. Afinal, somos quase 7 bilhões de pessoas no globo! A imagem que nos vem a mente é da Índia , o metrô de São Paulo na hora do rush, a cidade de New York. Certamente temos gente demais no planeta e pior, continua crescendo.  Mas será esta percepção verdadeira?

Outro dia saí de Brasília para levar o carro de minha mãe para Campo Grande. Dormi em Jataí, no interior de Goiás, e cheguei hoje à tarde ao meus destino final. Foram 1050 km de percurso. Deu para contar nos dedos das duas mãos as cidades que atravessei; a grande maioria mais para vilas do que propriamente para cidades. Cheguei a fazer um percurso hoje de mais de quase 200 km entre uma cidade e outra. Imensas fazendas com áreas a perder de vista e um enorme vazio.

O problema do número bilhão é que automaticamente nos sugere um número gigantesco, que foge à nossa percepção. Basta ver que não conseguimos registrar esse número em 99% das calculadoras do mundo. Mas será um número necessariamente grande?

Vejo que o corpo humano tem 10 trilhões de células. Comparado com este número, um bilhão parece pouca coisa. Parece que temos um total de 5 milhões de km3 de água doce no planeta. Todos parecem concordar que essa quantidade é pouca, mas se mudarmos de unidade, para hm3, chegaremos a 5 bilhões; se levarmos para litros então, não sei nem como expressar.

Ou seja, o número em si, não representa nada. O que sabemos é que não há dúvida que o metrô de São Paulo, na estação da Sé, as 18:00 de um dia de semana é insuportável. No entanto, no mesmo horário, há pessoas caminhando tranquilamente no Parque do Ibirapuera. E as praias do Rio de Janeiro estão praticamente vazias, boas para uma partida de futebol de areia.

Fiquei pensando o que aconteceria se toda a população do mundo fosse deslocada para o Brasil. Teríamos uma densidade de 747 pessoas por km2. Seria a maior do mundo? Vou no google. Seria a décima, logo depois de Jersey, aquela ilha que condenou o Maluf. E o primeiro, qual seria? China? Índia? Que nada, Mônaco! Um país que está muito longe de ser considerado um inferno para se viver! Lá a densidade é de inacreditáveis 16.000 habitantes por km2! A própria Nova Iorque tem uma densidade de 10.000 habitantes por km2, e seus moradores adoram a cidade.

Retomando, se toda a população do mundo fosse colocada no Brasil, a densidade seria vinte vezes menor que o principado de Mônaco. E o resto do mundo estaria desabitado! Parece um mundo superpovoado? Ou parece um mundo com algumas regiões superpovoadas, bem poucas por sinal? Sobre a China, sempre uma referência para superpopulação, a densidade é menor que a dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Na relação de países do mundo, fica no lugar 54. A Suiça, aquele país inóspito, fica em 44.

Se aplicássemos a densidade da Suiça no tamanho do planeta, teríamos uma população no planeta de 27,6 bilhões de pessoas.

A segunda questão seria se estamos nesse caminho. Contrariando todas as previsões, as taxas de crescimentos estão caindo fortemente, inclusive na África e Sudeste Asiático. Nestes locais elas ainda são relativamente altas, cerca de 4 filhos por mulheres, mas era de mais de 8 há pouco tempo atrás e continua caindo. O mundo como um todo está na faixa de 2,2, justamente a de estagnação populacional, mas cairá ainda mais em uma década. Significa que chegaremos nos 8 bilhões em 2050 (26 anos de 7 para 8). Já maior do que os 12 anos de 1963 a 1975. Ninguém arrisca dizer se chegaremos algum dia nos 9. Mais provável que terminemos o século em torno de 7. Já há modelos prevendo 6 bilhões.

Em resumo, minha imagem de um mundo de imensos vazios demográficos não estava completamente errada; nem minha intuição de um planeta surpreendentemente subpovoado. Parece que o principal fator é a urbanização, que está longe de diminuir para as próximas décadas. Ainda há continentes inteiros vivendo no campo. Talvez o grande desafio da humanidade não seja enfrentar um suposto crescimento, mas de ter um mundo mais distribuído. Não há como viver todo mundo em algumas poucas cidades. 

O grande fenômeno do século XX, que prossegue no XXI, foi a hipertrofia do estado moderno e a consequente diminuição do indivíduo. Muitos ainda acham pouco, defendem que esse estado seja ainda mais poderoso e absoluto.

Esse aumento do poder do estado não teria como acontecer não fosse pela tecnologia, pelo avanço científico, principalmente dos processos de gestão. Passo a passo com o aprimoramento da administração privada, os governos foram adquirindo instrumentos para garantir a ampliação de seu papel na sociedade. O resultado é o estado que temos hoje, onde um ferramental tecnológico sem paralelo na história permite que se caminhe a passos largos para um controle absoluto sobre indivíduos e empresas. Algo parecido com o que Huxley visualizou no cada vez mais indipensável Admirável Mundo Novo.

Um dos tipos desse pesadelo moderno, cheio de boas intenções, é o super-tecnocrata. É um funcionário público, honesto, capaz de usar todos esses instrumentos de controle e que conhece a legislação no detalhe; sabe citar artigos e legislações pelo nome, no caso, pelo número. Ele realmente acredita que um sistema criado pelo homem (a legislação) baseado em uma visão de um processo perfeito (como a compra de um bem) pode ser aplicado bastanto seguir o que está previsto. 

O que ele não sabe é que nada criado pelo homem é perfeito. A perfeição não foi um dos dons que o homem recebeu. Todos nascemos falhos e esse é um dos sentidos do que os cristãos chamam de pecado original. 

O tal processo perfeito não existe pois os processos são reais. Tentar tratar um caso real como se fosse este caso perfeito e até certo tempo utópico, é querer encaixar uma peça quadrada em um triângulo. 

Não esto dizendo aqui que deve-ser ignorar a legislação por não ser possível aplicá-la na prática. A grande questão é que mais um sistema limitante constituída de proibições, uma lei deve conter os princípios que devem nortear os atos humanos, todos falíveis. Reconhecer que o bom senso deve ter um espaço na análise de qualquer ato e recordar uma das grandes lições de Tomás de Aquino é fundamental para se conduzir uma administração pública. 

Que licão é essa? A de que toda norma é geral e toda situação é particular e concreta. A arte do sábio é saber aplicar a primeira na segunda, ou seja, encaixar um quadrato em um triângulo. Aquino se referia aos 10 mandamentos e as normas morais; mas o mesmo princípio vale para qualquer legislação. As situações são particulares e devem ser julgadas como tal.

Esse princípio não entra na cabeça do super-tecnocrata. Para esse existe realmente um mundo perfeito regido por leis perfeitas. Confia segamente em leis e regulamentos e qualquer ato em desacordo com o previsto deve ser penalizado o infrator. Tudo é dano ao erário, independente se o tal erário é danificado ou não. Não tem compreensão verdadeira do que seja bom senso pois, para ele, o bom senso é o extrito cumprimento de uma norma lega. Os números dos artigos e leis são os cânones que usa para fazer seus julgamentos. No fundo, é um fanático como qualquer falso religioso que quer tratar as leis gerais independente das situações particulares.

A simples existência de pessoas assim mostram um sistema doente. Esse é um dos motivos que o estado deve ser visto como um mal necessário e deve ter seu poder limitado. O indivíduo deve ter um certo grau de liberdade, podendo errar ou acertar, mas sempre sendo julgado por seus motivos e sua grau de responsabilidade e não pelo simples cumprimento de um dispositivo legal.

A pretenção de querer ser perfeito é a pretenção de querer ser Deus. O fruto dessa idéia só pode ser a desgraça e o sofrimento.

O Domingo Negro

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Quando o primeiro boletim do TSE saiu às 20:00 de domingo, dando a vitória para Dilma sobre Aécio, confesso que não acreditei. Eu realmente achava que Aécio venceria, pois não me passava pela cabeça que pudesse realmente haver alguma dúvida séria sobre quem seria, dos dois, o mais preparado para ser presidente da república; até porque a atual presidente é uma figura absolutamente bizarra, beirando ao grotesco. Algo deve estar profundamente errado em uma sociedade para que essa senhora seja sequer considerada para o posto, quanto mais vencer uma disputa presidencial. Naquele momento eu tive dois sentimentos contraditórios.

O primeiro, de raiva. Ódio por um sistema eleitoral corrupto que permite que o partido que está no poder utilize sem a menor cerimônia toda a máquina do estado para fazer campanha eleitoral. De um tribunal aparelhado, a começar por seu presidente, que faz vistas grossas para esses abusos mas age com prontidão para impedir que o adversário reaja. Raiva de uma imensa maioria de jornalistas que são incapazes de falar o que está acontecendo porque só podem criticar um lado quando puder criticar o outro para se defender de futuras acusações de parcialidade, sem perceber que ao igualar desiguais estão cometendo uma grande injustiça.

 O segundo sentimento que invadiu meu espírito naquela noite foi mais perigoso do que o primeiro, uma verdadeira abertura ao mal: a indiferença. Por algumas horas eu me coloquei em uma situação de Pilatos, lavando minhas mãos e me colocando indiferente ao futuro desse país. Se 54 milhões de brasileiros queriam continuar a ser governados por essa escória, que fossem felizes. Tenho aposentadoria especial, mal ou bem participo do todo da pirâmide. Não sou rico, longe disso, mas tenho perspectiva suficiente para viver razoavelmente bem sob jugo dessa malta de engenheiros sociais criminosos. Por um tempo flertei com a tentação de me colocar à margem disso tudo e me tornar indiferente ao que aguarda aos brasileiros, uma vida de mediocridade para o topo da pirâmide e de privações para a imensa massa dessa gente anestesiada pela esmola oficial.

 Por tudo isso, resolvi imediatamente me afastar das redes sociais e me expressar o mínimo possível. A raiva é má conselheira, diz um antigo provérbio português. Por isso mesmo acho que as pessoas devem relevar toda bobagem que foi dita nas primeiras 48 horas da divulgação do resultado. E não foi pouca bobagem.

Resolvi usar meu tempo para refletir, tentar encontrar as perguntas corretas para uma questão que absolutamente se colocou para mim: como é possível 54 milhões de brasileiros se enganarem em algo tão claro? Não me ocupo aqui com o eleitor de Dilma capaz de ler e entender o que lê, pois esses estão fora do alcance da razão. Uma coisa que foi boa nessa eleição é que houve realmente um confronto entre dois candidatos e não simplesmente um campeonato de esquerdismo, muito embora seja um exagero classificar o Sr Aécio Neves de um candidato conservador. Suas propostas, em qualquer democracia ocidental, seriam colocadas no mesmo lugar ideológico da centro-esquerda, junto com partidos como o democrata americano e o trabalhadores inglês. O candidato tucano defendia a intervenção do estado para regular a economia, era contra novas privatizações, falava em fortalecer o papel do estado e ampliação de política sociais. No entanto, seu posicionamento o colocava longe do populismo mais rasteiro, da irresponsabilidade macro-econômica que caracterizou os últimos 4 ou 8 anos. Ficou bastante claro nesse segundo turno a natureza dos dois candidatos e no debate o candidato da oposição colocou as questões de corrupção, responsabilidade política, bases de política econômica e fez algo nunca feito, a defesa do Plano Real e das privatizações realizadas. Dessa forma, o quadro ficou claro para o eleitor.

Mesmo assim escolheu a manutenção de um governo, que foi bem definido por Aloysio Nunes, outro homem de esquerda, como corrupto e fracassado. Como isso foi possível? Do eleitor capaz de ler notícias, entender o que está sendo debatido, e mesmo assim votou 13, só posso dizer que não vale a pena perder tempo e gastar saliva argumentando. Ele não vai mudar de idéia pois não há absolutamente nada de novo que possa ser dito a ele. Tudo foi colocado às claras nessas três semanas. Seu problema não é de conhecimento, de informação, é de outra natureza. No meio desse grupo, uma penca de gente que seria classificada como intelectuais, homens e mulheres com formação universitária, pós-graduação, que teoricamente deveria ser capaz de ver o óbvio e comunicar o que viu ao vulgo. Para entender a cabeça dessa gente, um bom começo é o livro A Traição dos Intelectuais, de Julien Benda. Em que consiste essa traição? Em trocar a busca da verdade, que deveria ser o norte moral para qualquer intelectual que se preze, pelo desejo de estar certo. No início do século XX Benda percebeu o que hoje está visível em cada análise de especialistas na imprensa e na academia: o intelectual não que saber da verdade, quer apenas mostrar que está certo. Trata-se exatamente do oposto do modelo proposto por Sócrates milênios atrás, em que o filósofo, o amante da sabedoria, colocava sua vida em risco por uma idéia que sabia correta, arriscando-se ao repúdio de toda a sociedade. Sócrates acabou muito mal, mas manteve-se fiel até o fim à verdade. No mundo moderno, todo mundo quer se sentir bem ao invés de entender o que está acontecendo. 

Portanto, você que votou na presidente e está lendo este texto, meu papo não é com você. Não quero e não acho possível convencê-lo de nada, apenas rezo para que sua revolta contra a realidade chegue ao fim, pois no fundo é uma revolta contra Deus e elas costumam acabar mal.

Meu papo é com a maioria. E volto ao ponto da indiferença. Nem no domingo negro eu tive raiva de você e não o culpo pela vitória da candidata, embora ache que em algum momento, no nível de sua compreensão, vai ter que lidar com a responsabilidade da escolha que você fez _ creio que a inflação vai ser o começo de uma pedagógica lição.

Não, nenhum sentimento de raiva tenho daqueles milhões que votaram na candidata, especialmente os que o fizeram por um dos mais genuínos motivos para votar em alguém, pelo medo que o outro seja pior. Mas confesso que por um tempo, algumas horas que pareceram uma eternidade, fiquei indiferente a você e isso sim foi extremamente perigoso. Se considero o voto de uma humilde alma, embora possa compreender seus motivos, um erro, muito pior foi o meu, o supremo pecado de violar a segunda lei eterna. Não posso, sem prejuízo de minha própria alma, ser indiferente à qualquer ser humano. É pecado ter raiva de alguém, mas pior ainda é sacudir os ombros. Dessa indiferença vem a raiz do mal que toma nossas almas e originou as maiores tragédias da humanidade. Felizmente esse sentimento durou pouco e no dia seguinte estava rindo sem conseguir me controlar. Quis manter minha tristeza ao máximo, consegui apenas até a primeira noite. Tenho fé demais para deixar ser triste.

O sentimento de domingo à noite foi um dos mais intensos que já experimentei. Fiquei realmente muito mal, como ficamos diante de uma grande tragédia, e realmente considero que foi. Mas talvez por isso tenha sido de tão curta duração. Aquela noite será sempre uma referência, meu domingo negro. Quero um país melhor para essa imensa quantidade de gente que acha que o estado é a solução para seus problemas e que se contenta com uma esmola oficial, que cada vez mais se torna um instrumento de pressão eleitoral sobre elas. Começo a achar que o país que sai dessas urnas, apesar de sua escolha, sai melhor do que entrou.

Os dois candidatos realmente polarizaram, colocando-se como dois modelos diferentes. Tudo que vier a partir de agora, será colocado nessa conta. A imensa maioria dos eleitores não é burra, pode ter níveis baixíssimos de educação, ser imediatista, ter pouca visão além do seu círculo de vida, mas isso não é sinônimo de burrice. Sua vida não será fácil e haverá o dia que se perguntará se fez a coisa certa. Ao contrário dos intelectuais traidores, terá a humildade de reconhecer que fez a escolha errada. Esse governo que se inicia tem tudo para terminar sem roupa, desmascarado, nu, para esse mesmo eleitor que secretamente tanto despreza. E até as baratas perceberam que quando sair, será para nunca mais voltar.

Como os rebeldes em Guerra nas Estrelas, o maior tratado de política da cultura popular moderna, enfrentamos o Império em situação de completa inferioridade, tentando sobreviver e com pouca esperança de sucesso. Mas como a Princesa Lea disse ao governador no Episódio IV, em um diálogo memorável, quando mais o Império espremer, mais sistema solares escaparão entre seus dedos.

Esse movimento apenas começou. A esperança veio para ficar. 

Caminhada do Jota

Fiel à realidade

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