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Falstaff e seu pagem (Shcrodler)

 

Um disco

Esta semana escutei bem Presto (1989), 13º disco do Rush. Depois de quase uma década fazendo pop anos 80, com a melhor qualidade, a banda toma novo direcionamento a partir do Preto, com uma pegada mais para o hard rock. A guitarra do Alex Liefson ganha peso e os teclados vão perdendo lugar.

Uma peça que li

Henrique IV, Parte 2. Impressionante o que Shakespeare faz aqui. Um príncipe irresponsável, que vive em más companhias, cometendo até pequenos crimes, resolve assumir sua responsabilidade como herdeiro e novo rei. A transição da influência de Falstaff (o caos) para o Lorde Juiz (a ordem), da juventude para a vida adulta. Falstaff é sem dúvida uma das grandes criações do bardo.

Youtube

Ontem assisti uma série de três vídeos do Professor Rodrigo Gurgel sobre leitura e declamação de poesias. O roteiro de interpretação que ele apresenta no vídeo 2 é o diamante da série.

Um livro que estou lendo

Por que o Brasil é um país Atrasado?, do Luiz Philippe de Orleáns e Bragança. Recomendo a todos. Uma aula sobre instituições e estrutura de poder no Brasil. E a constatação do tamanho do nosso desafio.

Versos

“Eu vi que todos os danos

Se causavam das mudanças,

E as mudanças dos anos;”

Camões, Redondilhas de Babel e Sião

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Terminei ontem de ler Henrique IV, parte 2. Algumas notas:

  1. Juntamente com a parte I, a peça trata da transição do Príncipe Hal, que vive cercado de má influências, a começar por seu tutor Falstaff, em um dos grandes reis da Inglaterra, o famoso Henrique V.
  2. A parte 2 vai concluir esta jornada. Hal vai substituir como figura paternal o anárquico Falstaff pelo ponderado lorde juiz, um dos principais conselheiros de seu pai.
  3. Trata-se de uma aceitação de seu destino, que Hal vê claramente como um fardo que terá que carregar (a cena com a coroa é marcante).
  4. Muitos acham que ser de uma família real é ser um privilegiado. Hal comete todas as loucuras da juventude justamente porque sabe que um dia chegará ao fim e terá que viver um papel para o resto de sua vida. O próprio Henrique IV, em seu leito de morte, confessa ao filho que não foi feliz com a coroa.
  5. Henrique IV tornou-se rei de forma ilegítima. Por isso teve que lutar a vida inteira para manter a coroa e se desgastou até a morte.
  6. Quem trai um, trai outro.
  7. Falstaff é uma figura dionísica. Anárquico, com uma lei moral própria, mestre das trapaças, mas ao mesmo tempo generoso e capaz de realmente ter afeto. Em contraste, o Lorde Juiz é uma figura apolínia. Correto e ponderado, chegou a prender o príncipe Hal por desordem. Fiel a princípios, não muda de atitude com o novo rei. O predomínio do impulso dionísico faz parte da juventude, mas o homem maduro necessita de Apolo, ainda mais se tiver grandes responsabilidades.
  8. O afastamento, no fim, de Falstaffé necessário, mas nem por isso menos tocante.
  9. O Príncipe João é uma deformação do apolínio. Se o Lorde Juiz tem a reta razão como guia, João tem sua própria fonte de moral, como demonstra a forma como lidou com a rebelião. Eficiente e pragmático, evitou uma guerra, mas não se pode dizer que foi honesto.
  10. Henrique IV passou os últimos anos querendo conquistar Jerusalém sem saber que já a tinha em seu próprio palácio.
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Falstaff e o Lorde Juiz: Dionísio e Apolo

O Titanic

O Titanic fez sua viagem inaugural sob festa. Era uma das grandes realizações humanas, o maior transatlântico já construído; a prova que o homem estava superando a natureza por força da razão e do seu engenho. Parecia indestrutível em sua forma colossal.

Uma das cenas que não esqueço do filme do Cameron foi após a colisão com o iceberg. A maioria das pessoas não sentiram. O navio prosseguia normalmente em aparente normalidade. O engenheiro chefe avaliou o estrago e constatou: o navio vai afundar.

O capitão e dono do navio ficaram pasmos. Como iria afundar? Estava navegando normalmente, o choque nem tinha sido tão forte!

Este Titanic é um símbolo perfeito para muitas coisas construídas pelo homem que parecem indestrutíveis. No fundo, a política da fé, como dizia Oakeshott, a crença que o homem e a sociedade podem se tornar perfeitas pela ação política. É uma crença que une socialistas, globalistas, progressistas, politicamente corretos, todos reunidos em um projeto de sociedade controlada pelo estado, que por sua vez é submisso a forças globais. O estado do bem estar social.

Pois este Titanic atingiu o iceberg. Parece que o projeto continua forte e indestrutível, e o baile continua, com muitas festa e champagne. Mas as comportas estão enchendo e logo o afundamento se tornará visível, e ganhará velocidade.

As forças da apostasia perderam. Em toda mitologia sempre houve uma constante: o homem não pode derrotar os deuses.

A ilusão da política da fé já gerou mal demais. Deus resolveu dar um basta.

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Quiet rebellion leads to open war

(Red Tide, Rush)

Dois de meus ensaios favoritos do maravilhoso livro Tremendas Trivialidades, do Chesterton, trata da relação do espírito com a matéria, ou do invisível com o visível.

Em “O Vento e as Árvores” ele faz uma interessante analogia. Uma criança pequena ao avistar os galhos de uma árvore balançando freneticamente em um vendaval pede ao narrador que faça elas pararem. Na cabeça do pequeno, eram as árvores que abanavam gerando o vento.

O homem moderno é como esta criança, que ao ver os galhos (a matéria) acredita que ela gera o vento (o espírito). A revolução francesa não foi a causa dos pensamentos revolucionários, mas o contrário. Antes da revolução, existe a filosofia e o pensamento. Ninguém jamais viu uma revolução, diz Chesterton, apenas seu final.

O invisível é a teologia, a filosofia, o pensamento. A matéria são as civilizações e as cidades. Tudo que conseguimos enxergar são os últimos e por isso achamos que são os mais importantes, que tudo explicam.

No segundo ensaio, “O Mundo às avessas”, Chesterton aprofunda o tema e chama atenção para a inversão que a humanidade faz, colocando a matéria como critério para o espírito. Assim, discute-se se dois empregados de um loja deveriam casar-se, ou seja, se o casamento dos empregados é conveniente para os negócios, quando o certo seria discutir se a loja é um local adequado para um casal trabalhar. Afinal, o casamento é uma das coisas espirituais da vida; os negócios, não.

Muitos cientistas sociais cometem este erro. Consideram a materialidade como explicação e causa de tudo. Daí o erro fundamental do marxismo, por exemplo. O homem não é governado pela economia, mas criador desta.

Mas o contraste preto-e-branco entre o visível e invisível, o sentido profundo de que a única crença essencial é a crença no invisível em oposição ao visível, reapareceu súbita e sensacionalmente na minha mente.

Rapidinhas da política

1. Todo dia uma hashtag pró-bolsonaro é derrubada dos TT do twitter. Não dá para dizer que eles não estão tentando.

2. Agora que o Toffoli garantiu que as urnas são seguras, ficamos todos mais tranquilos.

3. Hoje foi o dia que caiu a ficha. Só Bolso é capaz de evitar a volta do quadrilhão petistas.

4. Geraldo é o retrato da política antes das redes sociais. Apostou tudo no horário político da TV. Vai acabar atrás do Amoedo.

5. 95% dos jornalistas não estão promovendo informação. Estão usando, e deturpando, fatos e análises para provar que estão certos. Basta ver como trataram o novo episódio de agressão e destempero do cangaciro.

6. Já tem isentão entrando na fase da aceitação.

7. A maior característica hoje do jornalismo é a histeria. Inclusive de alguns dos melhores.

8. Há menos de um ano, muita gente no Exército reagia ao Capitão. Isso é passado. Estão fechados e cada vez mais unidos em torno do seu nome. O mesmo vale para as PM.

9. A grande mídia está fazendo um esforço desgraçado para que nenhuma imagem da popularidade das manifestações a favor de Bolsonaro cheguem nos jornais e na TV. Estão desesperados.

10. Quero crer que o silêncio da PF em relação ao atentado de Bolsonaro seja porque estão com pista quente.

PS

Tchau, alckmin.

Dica de Leitura 2

 

Sempre que terminar um capítulo, feche o livro e pense sobre ele. Tente resumir mentalmente o que leu, não recorra a anotações neste instante, pode voltar a elas depois.

Busque a essência. Como você explicaria o capítulo para alguém em poucas parágrafos?

Se quiser, escreva um parágrafo. Não mais do que um. Poucas frases. Guarde-o para guando terminar o livro e for refletir sobre ele como um todo.

Hoje de manhã, antes de ir à missa, fui reler um pensamento de Pascal. A primeira leitura foi em um uber, quando voltava do trabalho. Trata-se de um pensamento extenso, de algumas páginas, tratando da natureza do conhecimento.

Pascal divide as possibilidades em três. De um lado, os pirrônicos e acadêmicos (cépticos); do outro, os dogmáticos. Pirrônicos são os seguidores de uma corrente que surgiu no platonismo de cépticos, que duvidam de todo tipo de conhecimento. Foi muito influente na modernidade. Os acadêmicos são uma derivação que acredita que nunca conseguiremos saber nada. Pelo que pesquisei, os pirrônicos perseguem o conhecimento, enquanto os acadêmicos não acreditam que seja possível.

Os dogmáticos são os que acreditam na possibilidade do conhecimento pela fé.

Para Pascal, todo mundo tem que escolher entre uma das três seitas, pois não escolher significa ser pirrônico.

Só que todas estas posições são insuficientes. Existem conhecimentos, que são rejeitados pelos pirrônicos, que nos são fornecidos pela própria lei natural. Ou seja, é impossível ser pirrônico sem rejeitar a lei natural. O dogmático, por sua vez, acredita em dogmas que vão contra a razão humana.

Pascal entende que o problema vem da insuficiência do homem em entender o próprio homem. Estamos acima da nossa capacidade racional e por isso o conhecimento mais seguro é o revelado por Deus.

Somos marcados pelo pecado original. Só entendemos conceitos como verdade e felicidade porque nossos pais pecaram. Se tivessem continuado fiéis no paraíso, não conheceriam mentira ou falsidade. Nenhum desses conceitos faria sentido para eles porque felicidade seria nosso estado natural.

Que sejamos responsabilizados pelos pecados de Adão e Eva afronta a razão humana, mas, entende Pascal, sem este mistério o homem se torna incompreensível. Já aceitando o mistério do Pecado Original, tudo mais se torna mais claro.

Dessa forma, o homem se apresenta em carácter dual. No estado de nossa criação, e na graça, somos como Deus. No estado de pecado, nos tornamos animais como os demais.

O homem, resume ele, transcende o homem. Nosso conhecimento sempre será incompleto porque nossa razão não alcança nos entender completamente.

Trata-se de um tenso profundo e não estou seguro se foi realmente isso que Pascal queria dizer. Pretendo voltar algumas vezes e refletir sobre este pensamento de Pascal. Fiquei com a impressão que nessas linhas está condensada toda uma filosofia.