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A voz dos servos

Sempre que se fala em dar voz aos mais humildes, aos pobres ou mesmo os servos, imagina-se discursos contra a exploração. Afinal, o que mais eles poderiam nos dizer, não é? Essa literatura de protesto encontramos por todos os lados, ainda mais quando o marxismo tomou o imaginário de muitos artistas.

Mas será só isso que um servo tem a nos dizer? Um escritor russo do século XIX achava que não. Que se prestássemos atenção no que eles tinham a nos dizer aprenderíamos muito sobre a vida e as coisas que realmente importam.

Em Memórias de um Caçador, Ivan Turgueniev utiliza das caçadas de um narrador aristocrata para dar voz a diversos personagens humildes que ele encontra pelo caminho. Um exemplo é o conto Lgov, nome de um lago onde 4 personagens vão caçar patos. O narrador, seu caçador oficial (Yermolai), um caçador jovem que encontram pelo caminho (cujo queixo era preso por um lenço pois tinha sido atingido por um tiro acidental) e um velho pescador.

Boa parte do conto é o narrador escutando pacientemente a história de vida do velho, sob protestos de Yermolai, que não vê nenhum proveito em escutar uma pessoa tão simplória. Eles terminam virando o barco e retornam, guiados por Yermolai, que segura os patos mortos por uma corda pela boca. A ilustração abaixo mostra o momento do retorno.

São personagens vivos, que nos despertam a curiosidade sobre os mistérios da vida humana. Verdadeiras pinturas escritas.

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1. Vitória do Mengão. Jogo de duas equipes que se respeitam. Os dois Jorges vão abrir espaço para muito treinador novo no Brasil. Tem quase uma reserva de mercado dos medalhões.

2. Um molho de tomate que fiz no sábado, à base de mirepoix. Ficou da hora.

3. Escutei umas 5 vezes To Tame a Land, do Iron Maiden. Desculpe os haters, mas ninguém foi maior no Heavy Metal.

4. Li o primeiro capítulo do livro A Guide for the Perplexed, do Schumacher (o economista, não o piloto). Um absurdo de bom!

5. Estou substituindo perfis de política pelos de futebol, especialmente do Flamengo. Melhor para a saúde.

6. Vitória do Seahawks. Vitórias do Red Sox (mesmo sem valer nada).

Livros desafiantes

Há livros que estão em nível tão superior a nós que é impossível entendê-lo completamente em uma primeira leitura.

Esse foi um: https://www.goodreads.com/book/show/48136994-filosofia-da-cultura-brasil

Entendi 50%, mas o suficiente para perceber a genialidade do autor. Um dia ainda entendo tudo.

O assunto do livro é este aqui:

Diretor ou ator?

O renascimento trouxe uma outra concepção de mundo, em que o homem ocupa a posição central na vida. Ele é a medida de todas as coisas.

Não podemos esquecer que o renascimento nasce dentro do cristianismo, onde o centro da existência é Deus, que não só criou o mundo (o cenário) como age na história (as situações). Não significa que a vida humana é dirigida por Deus ao ponto de tirar nossa liberdade. Por um ato de amor, Ele nos quis livres e para isso nos dá uma possibilidade de decidir e agir dentro dos limites que nos foi colocado. Nesse aspecto, Deus é como um diretor de uma peça e nós somos atores, que podemos improvisar muitas situações.

Já na concepção renascentista (e depois humanista), o homem dirige a própria vida. Ele constrói sua existência e é responsável por sua história. Deus está morto, dizia Nietzsche. Nós nos tornamos pequenos deuses a governar nós mesmos.

Com estas colocações, fica fácil entender o que Shakespeare queria dizer com sua famosa colocação:

O mundo inteiro é um palco
E todos os homens e mulheres não passam de meros atores
Eles entram e saem de cena
E cada um no seu tempo representa diversos papéis.

Mais que entender, podemos compreender qual era a visão de mundo de Shakespeare. Ela era profundamente cristã e medieval, além de absurdamente inspirada. Foi realmente um gênio.

Interesses

É impressionante a quantidade de pessoas que aparentam defender teses razoáveis e meritórias para no fim revelar seu próprio interesse na causa.

Estou ficando descrente e isso não é bom.

A Brasília dos políticos e da burocracia faz mal.

A grande verdade é que Tite e seus antecessores conseguiram a proeza de tirar do torcedor o prazer de assistir a seleção brasileira. Ela foi aos poucos transformada em uma massa burocrática de inibição de talento pois o que interessa é ganhar a copa do mundo.

O interessante é que quanto mais nosso objetivo passa a ser ganhar a copa, mais longe ficamos dela.

À rigor o último grande time do Brasil foi aquele de 2006, derrotado tanto pela França quanto pela empáfia de jogadores e comissão técnica.

Tempos difíceis. Entre perder a copa jogando bem e ganhar a copa jogando mal, escolhemos jogar mal. E vamos perdendo as copas do mesmo jeito.

Cuidado com os discursos!

Em tempos de rápido acesso à informação através da internet, temos que redobrar o cuidado com os discursos. É fácil receber em seu celular um discurso de algum político ou pessoa influente, especialmente quando parece estar de acordo com o próprio pensamento. É preciso sempre ter um cuidado com aqueles que “falam bem”. Eles possuem a capacidade de nos convencer de muitas coisas.

O discurso é um instrumento de convencimento, de usar nossas percepções para nos levar a conclusões que nem sempre chegaríamos sozinhos e, pior, nem sempre estão certas. Por isso no diálogo Protágoras, de Platão, Sócrates ameaça deixar a discussão se o famoso sofista não parasse de discursar.

O que Sócrates propunha era o diálogo. Perguntas e respostas, de preferência curtas. Ele reclama que respostas longas costumavam fazê-lo esquecer do ponto principal e não colaboravam para seu principal objetivo, a busca da verdade.

Protágoras tenta reagir e fugir do debate, mas as pessoas que estão assistindo apelam para que continue e discuta com Sócrates. O que Platão estava querendo nos dizer é que para buscarmos a verdade das coisas precisaríamos sempre refletir sobre os dois lados em disputa, seja debatendo com alguém ou mesmo dialogando com nós mesmos. Esta era a essência do método que criou com o nome de dialética. Alternância de idéias para buscar a mais segura.

Recuperar o sentido disso é um dos maiores desafios do debate público nos dias de hoje. Infelizmente a polarização está tão acirrada que pouco se aproveita dos chamados debates nas redes. Na televisão e na academia a coisa é ainda pior. O debate é sempre promovido entre aqueles que pensam parecido, como se pode ver em qualquer mesa de discussão nos programas de tv ou as chamadas “discussões acadêmicas”. O debate verdadeiro é coisa rara nos dias de hoje. E por isso mesmo a verdade é tão atacada e até esquecida. Quem se importa com a verdade?

O importante é vencer uma discussão.