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STF: desânimo nacional

Meus caros,

Confesso que ontem fiquei bastante desanimado com a decisão da famigerada segunda turma em absolver Gleisi Hoffman da acusação de corrupção. Confesso que não sei se a acusação foi inepta, se o problema foi no MP, ou se foi a disposição dos ministros em passar pano da cúpula do PT. Que tenhamos sempre a pior suposição sobre a idoneidade dos ministros já é um mal terrível para todos nós.

Quando a fonte da moral se confunde com a fonte legal, que na democracia liberal representativa se manifesta em último nível na constituição, temos um problema gigante de filosofia política. Um texto escrito permite muitas interpretações e o tal estado democrático de direito resolveu o problema com a constituição de um forum reduzidíssimo de juízes para dar a interpretação correta. A meu ver, isso quebra a independência dos poderes e coloca as supremas cortes acima dos demais poderes.  Apesar de ser do judiciário, ela na prática funciona acima de todos e faz o que quer, sem prestar contas e ser responsabilizada por nada.

É a receita para o desastre. Levou tempo, mas perceberam que ter os juízes certos permitiria avançar qualquer legislação e bloquear também o que quiserem, como podemos constatar com o veto ao voto impresso e a instituição do casamento gay. A própria adoção do aborto nos EUA se deu por decisão da suprema corte e não por representantes eleitos. Além disso, em países como o Brasil, jogar o foro privilegiado para praticamente todos os políticos, garante que só esse reduzido grupo pode permitir que a lei os alcance. E não precisa todos, apenas uma minoria simples. No nosso caso, 6 ministros que ninguém elegeu pode fazer as aberrações que quiserem e só nos resta espernear.

Como sair desse buraco? O que fazer quando o STF se volta para o mal e passa a agir sistematicamente contra a sociedade? Costa que o advogado de Gleisi é advogado de Gilmar Mendes e professor em seu instituto. Ele se declarou impedido? Claro que não. Toffoli era advogado do próprio partido que Gleisi é presidente. Declarou-se impedido? Também não. Fachin está no supremo por força do PT do Paraná, onde Gleisi e Paulo Bernardo, além de José Dirceu, dão as cartas. Impedido? Também não. Vejam o tamanho do absurdo: dependemos que um dos ministros se declare impedido para que não participe de um julgamento! Não tem como isso dar certo, e não está dando.

Resumindo: a ordem em uma democracia representativa liberal depende da suprema corte defender a constituição, fonte última de todas as leis. Quando a suprema corte é perdida, tudo mais vai ruir pois não se sustenta. Pior, não há saída dentro da ordem legal para resolver a situação. A impressão é que chegamos em um beco sem saída.

 

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5 Bullets de Sexta

Olá pessoal!
Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

O que estou lendo
Lepanto, o poema de G K Chesterton que conta a história da batalha de mesmo nome. Mais que isso, estou decorando os 150 versos como prática de memória. Até agora, decorei os 15 primeiros.

Quem estou seguindo no twitter
Scott Adams (@ScottAdamsSays). O criador do Dilbert é quem melhor está entendendo o fenômeno Trump.

Banda que estou “revisitando”
Iron Maiden. Disco Matter of Life And Death. Um disco quase conceitual, tratando de guerra e religião. Adoro a bateria do Nicko neste disco.

Filme da semana
Baby Doll (1956), do Elia Kazan. O cara era um gênio da direção de atores.

Citação que estou meditando
“Filhos dos homens, até quando fechareis o coração? Por que amais a ilusão e procurais a falsidade?”
— Salmo 4

O que achou? Adoraria saber da sua impressão no Twitter. Qual bullet te interessou mais? Sugestões? Mande um tweet para @jotaramone e coloque #Jota5Bullet para que eu encontre.

Ruminando no twitter

Noite passada, depois de umas cervejas, resolvi ruminar no twitter (@jotaramone). Eis o que saiu (não digo que as coisas sejam assim, foi mais um exercício livre de pensamentos fragmentados):

  1. Pensamentos da madrugada, que não sei como articular direito, mas vamos lá. Se o Kim quiser sair do totalitarismo, como fazer? O risco é grande. Mandou matar gente, pode pagar com a cabeça.
  2. Um tribunal internacional destes pode condená-lo por crimes contra a humanidade. Um general pode matá-lo ao menor sinal de fraqueza. É um problema dos totalitarismos que poucos entendem.
  3. Para que um ditador totalitário abandone o poder ele tem que receber garantias que não será responsabilizado pelos crimes do regime depois. É injusto? Claro que é. Mas se não for assim, por que ele abandonaria o poder?
  4. Há muito ressentimento represado, pronto para vir à tona ao menor sinal de fraqueza de um regime. Pode ter guerra civil e gerar outra ditadura totalitária. (Não é redundância falar ditadura totalitária)
  5. Vejam o regime militar no BR. Era ditadura? Pode até ser, no limite. Mas não era totalitarismo. Os militares não tentaram impor um pensamento único ou uma ideologia na população.
  6. Ao contário, abominavam ideologias. Apesar de, sem saberem, serem influencidados por uma das piores, o positivismo. Não eram positivistas, mas eram tecnocracistas. Achavam que tudo se resolve com o técnico.
  7. De qualquer forma, as pessoas seguiam suas vidas. Só combatiam a luta armada e ataques diretos ao regime. Deixaram a esquerda dominar as universidades e o jornalismo.
  8. Quando pensaram em sair do poder, fica o mesmo dilema de Kim. E se forem perseguidos depois? E se forem processados e presos? Acharam talvez a melhor das soluções. A famosa anistia.
  9. Anistiaram todos da luta armada e garantiram a anistia para si mesmos. Foi a melhor solução. Os Generais poderiam deixar o poder e o país seguir sua vida. Mas isso em um regime autoritário.
  10. Totalitarismo é coisa muito mais séria. O ressentimento é muito maior pois o sofrimento vai muito além do que conseguimos imaginar. Destrói a pessoa. Vejam A Vida dos Outros.
  11. No Brasil, os esquerdistas fazem piadas de como enganavam a censura, de como os burocrataseram muitas vezes toscos e ignorantes.

 

Parece que apenas países desenvolvidos podem torcer por sua seleção. Brasil? E a corrupção? E o IDH menor que o Canadá? E o salário dos professores? Torcer para a seleção é alienação, é aderir ao pão e circo.

Interessante que um famoso comentarista esportivo postou foto com a camisa da Argentina. Que até onde sei tem todos os nossos pecados e mais alguns, como o de cancelar um amistoso contra Israel, o que inclusive lhe rendeu parabéns.

Se aceitarmos que não podemos torcer para o Brasil porque o país não vai bem, teremos que aceitar a tese implícita que só podemos aproveitar os bens contemplativos se os problemas sociais estiverem todos resolvidos. Significa que só os países desenvolvidos podem curtir esportes.

Mas por que só esportes? Por que não teatro, música, cinema, livros e tantas outras opções de lazer que nos fazem esquecer por algum momento de nossa realidade? Quer escutar funk? Não pode. Só o músico da Urca pode. Ou aquele outro que vive mais em Paris do que aqui. Você, brasileiro, tem que usar a copa para protestar contra Temer. Ou o capitalismo. Ou o patriarcado. Copa do Mundo é só para os bacanas.

Ontem assisti Baby Doll (1956), dirigido por Elia Kazan e texto do Tennessee Williams. Três personagens fascinantes, retratos do mundo moderno.

Um homem fraco, constantemente humilhado, que perde o controle sobre seu destino por falta de capacidade pessoal para lidar com a modernização. Um posso de ressentimento que encontra no uso a violência sua válvula de escape.

Uma mulher que se recusa a crescer e acha que pode brincar de boneca a vida inteira. Ao finalmente encontrar uma adversário que se recusa a fazer seu jogo tem a oportunidade de enfim amadurecer.

Um homem racional, produto da modernidade, mas que diante da incapacidade do estado não pensa duas vezes em assumir a justiça nas próprias mãos. Falta-lhe piedade e empatia para lidar com o mundo.

Um panorama sobre a ruptura de uma antiga ordem para emergência de uma nova, de natureza científica mas desprovida de laços de amizade que constroem uma sociedade.

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Uma imagem vale mais que mil palavras, certo?

Talvez um dos lugares comuns mais falsos da história, como prova esta foto. Dependendo de suas preferência política, vai interpretar de maneira totalmente diferente seu significado.

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Há os que verão uma mulher forte, liderando o mundo contra um homem intransigente

Há os que verão um homem no domínio da situação, que contempla calmamente seus adversários que perdem a cabeça.

 

 

 

Destaques da semana

Alguns destaques da minha semana:

O Senhor dos Anéis

Terminei a releitura. Peter Kreeft disse uma vez que se livros pudessem ser santificados, canonizaria O Senhor dos Anéis. Não que um livro seja uma apologia cristã; em verdade trata-se de uma mitologia pré-cristã. Mas da mesma forma que o Antigo Testamento prefigurava o Cristo que viria, o livro de Tolkien faz o mesmo, especialmente com os personagens de Frodo (sacerdote-sacrifício), Aragorn (rei que retorna) e Gandalf (mago profeta). Mas nada disso funcionaria se não fosse realmente uma obra de arte, um grande épico de coragem, sacrifício, honra e luta implacável contra o mal.

A Matter of Life and Death

Curtindo esse disco do Iron Maiden em vinyl. Esse é um daqueles que gostei desde o início, em seu lançamento, mas ainda não tinha prestado atenção nas letras. É quase um disco conceitual, tendo guerra e religião como seus temas.

Scott Adams

Comecei a assistir mais atentamente os periscopes de Scott Adams, o criador de Dilbert e talvez a pessoa que melhor esteja entendendo não só o fenômeno Trump como a própria realidade que estamos vivendo. Quem acha que Trump é um grande idiota e Scott um conservador fã do laranja, está completamente enganado. Scott é ultra liberal, mas como estudioso da arte de persuasão, ficou fascinado com o domínio de Trump sobre o tema. Ele propõe que o grande filtro que tem que ser usado para entender Trump é a persuasão. Comecei a ler seu livro, Win Bigly, onde ele trata deste assunto.

The Good Place

Terminei de rever a primeira temporada da série. Ficou ainda melhor, apesar de não ter o prazer das reviravoltas. Alguns comentam que tinham adivinhado e só me pergunto: por que? Por que eu perderia o prazer de ser surpreendido?