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Estou relendo o diálogo Protágoras, de Platão. Trata-se de uma reflexão sobre o sofista, uma espécie de profissional que existia nos tempos de Sócrates que ganhava dinheiro ensinando jovens a ganharem discussões públicas, independente da tese que defendessem.

Ou seja, o sofista não tinha compromisso com a veracidade do que ensinava e sim em ensinar o vocabulário para que o aluno apresentasse sua tese como verdadeira e ganhasse um debate.

Não sei porque, mas lembrei da universidade moderna. Até que pontos os professores, principalmente nos curso de pós-graduação, são sofistas?

Olhai se esta passagem não poderia ser um alerta a um jovem estudante que entra para uma universidade?

Mas se não estás, toma cuidado, venturoso amigo, para não por em risco o que te é mais caro numa jogada de dados. Asseguro-te que há um perigo muito mais sério na compra de ensinamento do que naquela de produtos comestíveis. (…) É obrigado, uma vez acertado e efetuado o pagamento, a absorver o ensinamento na tua própria alma, aprendendo-o. E então partirás, prejudicado ou beneficiado.

Este conto faz parte do livro Memórias de um Caçador. Na verdade, o narrador anônimo faz mais do caçar animais silvestres, ele caça estórias da gente humilde da Rússia agrária.

Neste conto, ele conhece Biriuk, um guarda florestal admirado pela retidão e competência. Abrigando-se da chuva, o narrador descobre que ele vive pobremente, com a filha e um bebê que foi abandonado na frente de sua casa.

Durante a chuva, ele captura um camponês que cortava ilegalmente uma árvore e demonstra que por trás dos gestos rudes e fama de implacável, existe uma humanidade verdadeira.

Simbolismo e Alegoria

Ainda vou escrever um texto decente sobre este assunto, mas há uma enorme confusão entre alegoria e simbolismo.

A alegoria ocorre na literatura quando se cria uma estória para representar uma determinada realidade. O crônica mais famosa de Nárnia, O Leão, A Feiticeira e o Guarda-roupas, é uma alegoria da vida de Cristo. A Revolução dos Bichos uma alegoria à revolução russa.

Já o simbolismo é de outro patamar. Algo é simbólico quando remete a uma realidade, mas por uma força do próprio ente ou acontecimento. A água, por exemplo, entre outras coisas, representa a renovação. O fogo representa o espírito e assim por diante.

Infelizmente, na modernidade, o homem perdeu o sentido simbólico das coisas e quando muito consegue enxergar uma alegoria, o que empobrece a sua compreensão das grandes obras do espírito.

Vejamos o caso de O Senhor dos Anéis. Um pensador alegórico vai enxergar no livro de Tolkien uma alegoria ao nazismo, com os hobbits no papel do ingleses e Sauron de Hitler. Faz sentido, mas é muito pouco.

Pois o simbolismo que Tolkien desenvolve é de muito mais profundidade. O anel é um símbolo das idéias circulares, pequenas, mas que aprisionam a mente de quem a possui. Uma pessoa poderosa com um anel é um perigo para todo mundo, pois ele possui meios de ação para impor a idéia representada pelo anel. Por isso ele tem que ser destruído. Os muitos anéis da obra são ideologias, que corrompem até mesmo o mais inocente que o utiliza. Frodo, Aragorn e Gandalf simbolizam juntos o Cristo, através de seus três papéis: servo sofredor, rei e profeta. Toda a saga é o simbolismo da luta da matéria para derrotar o espírito, que sempre termina em fracasso, mas nem sem grande sofrimento.

Praticamente todo teatro de Shakespeare tem este sentido de revolta da Terra contra o Céu, mas somos incapazes de perceber porque perdemos a capacidade simbólica.

Muito do que estudo é justamente para adquirir esta capacidade de enxergar estes símbolos. Depois que você começa a conseguir, um mundo infinito se abre para você.

Terminei atordoado de ler o longo ensaio de Voegelin, escrito no fim de sua vida, que praticamente faz um resumo sobre seu entendimento da estrutura da realidade e do caminho do filósofo para entendê-la. Trata-se de Sabedoria e Magia do Extremo: uma Meditação.

Como sempre, ele parte de um problema real: o sonho utópico das ideologias. Como é possível tamanha deformação da realidade? Ainda mais por pensadores de primeira grandeza como Hegel?

A quantidade de iluminações que Voegelin apresenta, página depois de página, é para atordoar qualquer um e terminei a última frase sabendo que vou ler este ensaio até o fim da vida.

Como alguém pode se impressionar com Kant depois de ler Voegelin? Com Hegel? Marx nem falo porque é filósofo de terceira categoria.

Nem vou resumir este artigo aqui porque ainda não estou em condições para tal. Primeiro vou ler As Leis, do Platão, depois reler o ensaio com toda atenção para ser capaz de ter um entendimento que me permita fazer uma resenha digna.

Notas de Sexta!

Olá pessoal!

Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

1. Um filme que assisti: Mais ou Menos Grávida (For Keeps, 1988)

Título horroroso em português (nota mental: escrever um artigo sobre esses títulos que distorcem o entendimento do filme), mas uma bela estória sobre a forma como nos conectado e superamos as dificuldades que a vida nos impõe. Eu sou eu e minhas circunstâncias, já dizia Ortega Y Gasset.

2. Um disco que ando escutando: Once Upon a Time (Simple Minds, 1985)

Um dos melhores discos de rock dos anos 80. Gosto de tudo que a banda fez nesta década, especialmente do clima das músicas, as linhas de baixo, os vocais de Kerr e a guitarra delicada de Burchil.

3. Um livro que estou lendo: As Viagens de Gulliver

O livro é muito conhecido e pouco lido. Muita gente acha que trata-se apenas de uma viagem, em que Gulliver encontra humanos em miniatura e se torna gigante. Em realidade são várias viagens em que se troca constantemente o ponto de vista, em uma sátira maravilhosa da sociedade do início do século XVIII, sob influência já do iluminismo.

4. Um ensaio que estou lendo: A Sabedoria e a Magia do Extremo: uma meditação

Em um de seus últimos escritos, Eric Voegelin discute o sonho da utopia e a operação mágica que é realizada para que este sonho apareça como uma possibilidade real. Com direito à análise de um soneto de Shakespeare.

5. Uma frase que ando refletindo

Tudo isso o mundo sabe bem, mas ninguém sabe bem

Evitar o céu que leva aos homens para este inferno

Shakespeare

Mantendo laços

Mais ou Menos Grávida (For Keeps, 1988)

Nos anos 80, os filmes de John Hughes consolidaram um gênero de cinema que ficou conhecido “coming age”, muito mal traduzido para “filmes de adolescente”. Na verdade, trata-se de maturação, da difícil passagem da adolescência para a idade adulta.

For Keeps não é um filme de John Hughes, mas tem essa pegada, até por ter como protagonista uma das atrizes reveladas por Hughes, Molly Hingwald.

A tradução do título em português é mais uma das aberrações que se faz por aqui, pois distorce o próprio sentido do filme. Não se trata de um filme sobre gravidez, muito menos uma semi-gravidez, mas sobre a manutenção dos compromissos assumidos nos momentos de dificuldade.

Esse é o grande desafio de Stan e Darcy, fugirem do exemplo do pai de Darcy que abandonou sua mãe quando esta ficou grávida. Mais que isso, tanto a mãe dela, quanto os pais de Stan, os abandonaram quando o jovem casal resolveu não seguir o que eles tinham decidido por eles.

É um filme bem interessante sobre carácter. Mesmo em uma situação imprevista, e com toda imaturidade envolvida, no fundo é na virtude que possuem, e no amor que sentem um pelo outro, que devem superar as dificuldades e evitar as soluções fáceis que são colocadas no caminho que escolheram.

Hospital, de novo!

Depois de passar uma semana internado em Agosto por conta do covid, eis que me encontrei esta semana novamente hospitalizado.

No domingo, meia noite, acordei com forte dores abdominais. Achei tinha sido um milho mais ou menos passado que tinha comido depois de um churrasco. Fui na emergência, tomei buscopan na veia, mas não melhorou.

Retornei ao hospital e fiz coleta de sangue, mas nenhum sinal que indicava algo mais grave. Quando estava no estacionamento, o médico me alcançou. Ele começou a suspeitar que poderia ser um processo inicial de apendicite e resolveu pedir uma tomografia.

Bem, errou o apêndice, mas acertou a vesícula. Foi internado à noite e na terça de manhã removi a dita cuja. Aproveitei para resolver uma hérnia umbilical que estava enrolando a meses.

Cirurgia foi tudo bem, já estou em casa, em home office por 15 dias.

Seguimos em frente.

As vestes e a graça

O Evangelho de hoje conta a parábola do reino de Deus como uma festa de casamento onde muitos são os convidados e poucos os escolhidos.

Um dos pontos centrais desta parábola é quando o rei interpela um homem que não usava as vestes da festa e manda açoitá-lo e amarrar seus pés. Por que o rei fez isso?

As vestes da festa simbolizam as graças que Deus nos envia ao longo de nossas vidas. Temos sempre o livre arbítrio para recusá-las, o que fazemos freqüentemente, para nossa desgraça. Ela não aparece tão claramente quanto muitos imaginam, na maioria das vezes é bastante sutil e revestida de um aspecto tão humano que custa-nos acreditar em sua origem transcendente.

Não conheço melhor estudo da graça (e de nossa recusa) na literatura do que os contos de Flannery O’Connor. Já no cinema, principalmente em seus contos morais, é Eric Rohmer que nos dá uma boa perspectiva.

Ambos nos ensinam a prestar atenção nas pequenas coisas, pois nelas pode estar escondidas as graças que Deus nos envia.

Um mergulho no lago Paranoá

Eu posso não ser o mais cuidadoso em épocas covideanas, mas também procuro me resguardar. Uso sempre máscara quando saio, procuro lavar as mãos, hábito que não tinha, fiquei meses sem pedir sushi (alimento cru manipulado), nada de clubes.

Tive covid, passei algum aperto, curei-me. Mesmo assim, procuro agir como agia antes, com todos os cuidados básicos.

Hoje, pela primeira vez desde que tudo isso começou, dei um mergulho. Não foi numa piscina, mas no lago Paranoá, em passeio de lancha com um casal amigo. As meninas adoraram e aproveitei a oportunidade para tirar do corpo toda energia negativa que acabamos recebendo ao longo do ano.

Não sei como será daqui para a frente, falam da tal segunda onda. Também não sei se existe re-infecção (a última vez que me falaram disso parece que eram 11 registros em 30 milhões de casos), mas aproveitei meu momento.

Será que viveremos em um mundo que ocasiões como esta serão raras? É o tal novo normal? Teremos sanidade mental para aguentar viver constantemente entre relaxamentos e endurecimento de medidas de confinamento?

Notas de Sexta!

Olá pessoal!

Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

1. Um restaurante que revisitei: Família Mancini

O trabalho levou-me para São Paulo esta semana. Eu e dois amigos chegamos no hotel, no Ibirapuera, às sete e meia da noite. Onde jantar? Lembrei-me do Restaurante Família Mancini, bem próximo. Cantina italiana de primeira, numa rua que foi reformada pela própria família. Pena que os bares estavam fechados e meus amigos não puderam ver a rua em sua condição natural da noite paulista.

2. Um livro que terminei de reler: As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo, do Constantin Noica

Noica afirma que além das doenças físicas e psíquicas, existem também as doenças do espírito e estas doenças são exatamente seis. São as combinações possíveis entre ausência ou recusa dos sentidos geral, particular ou suas determinações. Ainda vou montar o quadro comparativo das seis!

3. Um filme que assisti: Um Olhar a Cada Dia (ou O Olhar de Ulisses)

Filme do cineasta grego Theo Angelopoulos. Confesso que não é um filme fácil de assistir e interpretar. Trata-se de um cinema evocativo, em que cenas do passado, presente e sonhos se misturam, nem sempre de forma clara. O tema do filme é uma odisséia de um cineasta grego pelos balcãs no auge das guerras provocadas pelo fim do comunismo.

Que cena!

4. Um disco que andei escutando: Street Fighting Years, do Simple Minds

O Simple Minds é uma das minhas bandas favoritas dos anos 80, mas confesso que não tinha parado ainda para escutar este disco de 89.

5. Uma frase que ando refletindo

The first thing God created was the journey, then came doubt, and nostalgia.

Niko, em Um Olhar a cada Dia

Parece que a pandemia, seja pelo lockdown ou pela diminuição de pessoas circulando, além da queda do poder aquisitivo, afetou principalmente os pequenos negócios, as chamadas empresas familiares.

Com isso, mesmo na crise, grandes empresas encontraram o momento certo para expandir seus negócios comprando ativos abaixo do valor que tinham, pelo desespero dos pequenos em liquidar seus negócios.

Acho isso tremendamente ruim para todos nós.

Um mundo com menos empresas e concentração da propriedade nas mãos de poucos é justamente o que Chesterton, Belloc, Schumacher e outros alertavam.

A pandemia ajudou neste processo. Talvez seja, no longo prazo, o pior de tudo que estamos passando.

Questão de um momento

Sabem aquela noite perfeita, com as pessoas que você mais ama, mas num estante você se irrita por nada e fala uma bobagem que estraga tudo? Depois você passa o restante da noite remediando, mas sabe que fez bobagem e que aquela noite já está perdida pois de certa forma você quebrou o encanto.

Acho que é mais ou menos como funciona o mal no coração dos homens. Se não vigiarmos podemos cometer, em um momento, algo realmente grave e mudar nossa vida para sempre, mesmo que nos arrependamos e nos dediquemos realmente a reparar o mal feito. Nunca será como antes, mesmo que sejamos perdoados.

Por isso temos que ser vigilantes e impedir que isso aconteça. O mal só precisa de um momento de distração, um momento em que entregues à nossa vaidade nos deixemos seduzir e tudo perder.

Notas de Sexta

Olá pessoal!

Eis minha lista semanal de 5 coisas interessantes que andei fazendo (inspirado pelo Tim Ferris 5-bullets friday)

1. Uma disco que andei escutando bastante: High and Mighty (Uriah Heep)

Este é um dos trabalhos mais subestimados do Heep, inclusive pela própria banda. David Byron seria expulso logo a seguir por seus problemas com álcool e o ambiente já não estava bom. No entanto, considero um baita disco. A sonoridade está muito boa, o que ressalta a bateria de Keerslake, assim como os demais instrumentos. Gosto muito das composições e nessa discordo da crítica.

2. Um livro que estou lendo: O Reacionário (Nelson Rodrigues)

Trata-se de uma série de crônicas que em que Nelson relembra episódios de sua vida, pensamentos, mudanças na sociedade, tudo com o excepcional domínio que tinha de nossa língua. Particularmente tocante é a crônica em que descobre que sua filha nascera cega.

3. Um filme que assisti: O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas

Sete amigos iniciam a vida adulta após formarem na faculdade. Trata-se do início da maturidade, aquele momento em que existe uma tensão entre ilusões e realidade, que precisam ter algum equilíbrio.

4. Uma pizzaria que conheci aqui em Brasília: Don Giovanni

Já é minha favorita. Pizza italiana, do jeito que eu gosto: massa fina e crocante. O dono é italiano legítimo, o ambiente é agradável e tudo muito saboroso. Uma curiosidade é que ao longo do tempo, várias sugestões de clientes entraram no cardápio com o seus nomes.

5. Uma frase que ando refletindo

A ilusão moderna de abolir a condição humana é a raiz de sua própria tragédia.

Autor (quase) desconhecido

Há alguns anos atrás, assisti um documentário norueguês sobre o paradoxo da igualdade de gênero. Chamou-me atenção, independente da tese defendida, a forma como o tema foi tratado.

Paradoxo da Igualdade de Gênero,

Primeiro, após colocar a questão, o documentarista formula claramente a tese que defende: a desigualdade de gênero não pode ser explicada apenas pelo contexto social, também existem pré-disposição biológica.

Durante uma hora e meia, os pesquisadores e formuladores de políticas públicas da Noruega são entrevistados e a opinião e argumento deles são apresentados de forma honesta, sem distorções ou ironias. Só então o documentarista abre espaço para os que se colocam a favor da tese que defende, dando a eles o mesmo tratamento dado ao primeiro grupo.

O documentário ainda retorna aos defensores da desigualdade de gênero como produto social e apresentam a opinião dos cientistas que defendem o argumento biológico e abre espaço para que eles retifiquem ou mantenham suas opiniões.

No fim, o documentário retoma a questão e deixa aberta a pergunta para que o público possa decidir por si mesmo.

Para quem conhece, o que o documentário fez é bem próximo da estrutura da Suma Teológica de São Tomás de Aquino. Coloca a pergunta, coleta os argumentos em contrário, coloca a defesa da tese e refuta os argumentos levantados. Método realmente científico de tratar uma questão social.

Lembrei deste documentário esta semana refletindo sobre O Dilema das Redes, documentário que trata dos efeitos das redes sociais nas pessoas, particularmente na juventude. O Dilema é tudo que o Paradoxo não é em termos de estrutura.

E aí começa o seu problema.

O mito que leitura resolve tudo

John Stuard Mill começou a ler Platão e estudar grego aos 5 anos, obrigado por seu pai.

Cresceu convencido que era um reformador do mundo e publica um livro (Utilitarismo) defendendo que a moral é definida pelo máximo prazer.

Ler muito, e nas horas erradas, faz mais mal do que não ler nada.

Toda vez que me dizem que o importante é ler, lembro dele e pergunto: ler o que? Em que momento?

A pessoa confusa, responde:

__ Qualquer coisa!

E eu fico sinceramente na esperança que ela não esteja lendo nada.