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D Pedro I era um jovem voluntarioso, que tinha seus ideais de grandeza. Queria, como todo príncipe, ser um estadista, definir os rumos de uma nação.

Leopoldina era a herdeira de uma tradição. Ela tinha a perfeita noção do sentimento do dever, talvez o valor mais importante para um verdadeiro líder. Junto com Joaquim Nabuco, que representava os ideais de uma verdadeira democracia representativa, ela estava ao lado do Imperador para apontá-lo para o caminho certo.

Só que do outro lado, havia Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. Ela representava a sensualidade, o agora, a urgência, o sonho de grandeza sem esforço, a política dos protegidos, a falsidade do próprio título. Ela era a mais bela, a mais interessante.

D Pedro rejeitou Leopoldina, que morreu de desgosto por não ter mais influência sobre o marido. O dever é sempre chato e feito; o prazer é belo.

O Brasil foi fundado neste episódio e vive nele até hoje.

Somos D Pedro que eternamente escolhe a Marquesa de Santos em detrimento de Leopoldina.

A disputa do nada

A física nos ensina que onde há trabalho, há atrito. Essa lei é uma constante nos ambientes corporativos, especialmente quando se está realizando algo de relevante. Pensamos diferente, divergimos, disputamos espaço e temos soluções diferentes para os problemas. Muitas vezes esses atritos contribuem para soluções melhores, mas muitas vezes, não. Infelizmente temos em nosso coração uma certa dose de vaidade, o que é próprio da condição humana. A Bíblia chama isso de pecado original e quem achar que está livre desta marca ainda não começou a entender  o que somos.

É uma infelicidade quando duas pessoas, impulsionadas pela vaidade, se dedicam a querer provar que estão certas e a outra, errada. A tragédia é que trata-se de uma disputa em que ambos perdem. Vamos supor que eu prove que estou certo, o que acontece? A outra pessoa tem o orgulho ferido, o que só aumenta seu ressentimento. Eu fico com a euforia de ter provado minha superioridade e com o pior mal dos dois, o reforço da minha vaidade. Ao fim, nenhum de nós estará mais próximo do outro e ambos fracassaremos em algo muito mais importante do que essas disputas mesquinhas, e que nem imaginamos estarmos enfrentando, o eterno desafio de amarmos uns aos outros. 

É um espetáculo triste de ver, especialmente quando são pessoas que gostamos. Parece que nada que dizemos faz a menor diferença; estão cegos pelo ressentimento mútuo. Uma pena. 

O pior é que muito depois, quando entendermos a verdadeira perspectiva das coisas, perceberemos que tudo aquilo que parecia tão importante no momento era pequeno. Teremos aquela sensação de energia que foi gasta por tão pouco. 

Poucas coisas são realmente importantes na vida. Tragicamente gastamos grande parte do nosso esforço nas coisas que pouco importam, ou que não importam nada. Se me perguntarem a minha receita pessoal da felicidade eu responderei que começa por identificar o que realmente importa e jogar de lado tudo o mais. 

Enquanto isso não acontece, somos um bando de idiotas disputando o nada. 

Brasília, uma agressão

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Brasília é um atentado contra o indivíduo. Um monumento ao stalinismo, produto da mente de um comunista, que faz o homem se sentir pequeno diante do estado, para entender sua situação de dependência. É meu destino para o próximo ano, mas não sou obrigado a gostar, apesar do conforto relativo que nos proporciona.

Comparam com Washington; uma bobagem. Esta foi claramente inspirada em Atenas. Brasília, no inferno comunista. O homem sempre será uma formiga naquele pesadelo de concreto armado, onde não há lugar para aderência de uma cultura. É a rejeição à tradição; uma cidade construída de uma maneira que nunca mudará. Uma paisagem eternamente feia e opressora.

Tenho muitos amigos que a amam. Não duvido. O brasileiro também ama o estado, que o oprime o tempo todo, sem perceber. Brasília é um sucesso, pois consegue, como o estado, ser amada como se fosse uma grande protetora e não o sintoma de uma grande doença.

Brasília tem luz, Brasília tem carros
(Carros pretos nos colégios)
Brasília tem mortes, tem até baratas
(em tráfego linear)
Brasília tem prédios, Brasília tem máquinas
(Servidores Públicos ali)
Árvores nos eixos a polícia montada
(polindo chapas oficiais)
Brasília, (Brasília)

(Plebe Rude)

Dizem os entendidos que duas condições são fundamentais para o impeachment de um presidente: perda do apoio no congresso e pressão popular. Estas duas estiveram presentes tanto no caso Collor quanto na queda da Dilma. Na verdade, é bem possível que no limite seja a pressão popular a fundamental, pois ela termina impactando especialmente nos deputados, bem mais sensíveis à opinião pública.

Longe de mim querer defender um sujeito como Temer, até porque ele e seu partido foram fundamentais para a continuidade do partido das trevas no poder, mas não deixo de observar que apesar de toda campanha da grande mídia, encabeçada pelas organizações Globo, as ruas estão vazias. Tirando os pelegos de sempre, o povo não está exigindo a saída do presidente. Esqueçam essas pesquisas fajutas, até porque as perguntas são colocadas de forma a induzir a resposta, o importante é que não existe nenhuma manifestação popular pedindo a cabeça do presidente.

Por que? As denúncias são graves, há evidências de má conduta do presidente, e a campanha dos formadores de opinião _ que não entenderam que formam cada vez menos opinião _ é inclemente, mas mesmo assim o povo observa tudo meio que em silêncio, desconfiado. 

Acho que a palavra correta é essa mesmo, desconfiança. As pessoas comuns sentem que tem algo errado na movimentação da PGR, na cobertura da mídia, na revolta dos partidos de extrema esquerda que só enganam universitários, o que prova que há um problema sério nas universidades, e os cidadãos do Projaquistão. O povo está desconfiado do mesmo jeito que alguém fica quando querem empurrar um carro usado de origem suspeita. Temer é inocente? Provavelmente, não. Mas o vendedor da tese é muito suspeito.

Meu palpite é que as pessoas comuns pressentem o caos. Jornalistas adoram a confusão, ganham audiência e cliques quando a coisa desanda. Já o João e José querem mesmo é um emprego e fazer supermercado. Sabem que Temer fica até ano que vem, o tempo para ir levando sem muitos sustos a economia. Ao contrário, quem desarrumou recentemente o coreto foi a denúncia irresponsável e sem apuração devida da Globo, que mostrou uma gravação que não continha o que tinha alardeado. 

Isso quer dizer que o crime é permitido desde que a economia vá bem? Claro que não, mas numa democracia é preciso de uma boa certeza antes de jogar o país no caos. Antes que comparem Dilma com Temer, a primeira foi muito além de uma corrupção comum. Desarrumou a economia do país para sustentar uma máfia no poder, usando para isso BNDES, taxa de juros, bancos estatais e festas irresponsáveis. Além disso, pretendeu uma hegemonia cultural contra tudo que o brasileiro acredita. Não dá para falar de agenda ideológica no governo Temer, nem de destruir a economia de um país em proveito de um projeto. O Brasil já estava no caos antes do impeachment, não podemos esquecer. 

O povo pode não entender nada de economia, mas sente que tem algo muito podre por trás do moralismo daqueles que durante 13 anos atuaram para proteger os novos donos do poder. Estão começando a ficar céticos, e isso é bom. Por isso Temer continua, a despeito do choro da raça de víboras, que tanto mal fez e faz ao Brasil. 

As questões de Brasília

Ao invés de querer ter razão e emitir logo opinião sem fundamento, tenho acompanhado o que está saindo até aqui. É muito difícil saber ao certo o que é verdade. Há interesses pesados envolvidos, inclusive da maior empresa de televisão do país, que recebe grande aporte de propaganda da JBS, o que nos faz perguntar até que ponto o que seus jornalistas estão noticiando é exatamente verdade.

  1. A situação do Temer é grave, apesar da lambança com a tal gravação. Em situação normal, é para derrubar mesmo. Mas a sua substituição está sendo associada a um movimento de eleição direta antecipada, que desperta muita incerteza. A pior coisa que pode acontecer é a volta do PT ao poder com voto popular. Nada segurará o ressentimento dessa turma.
  2. O Lauro Jardim, e a Globo, venderam a gravação como definitiva. Não é o que estamos vendo. As provas documentais são mais graves do que esse áudio dúbio de valor questionável. Por que a pressa da emissora em se livrar do Temer?
  3. Há uma moderação ao tratar do tema por jornalistas fora Globo que contrasta fortemente com a emissora carioca. O que eles sabem? Ou, o que eles pretendem?
  4. O STF não é garantia nenhuma de manutenção da constituição. E faz tempo. Do mesmo jeito que fatiaram o impeachment, em emenda proposta pela Rede, não esqueçamos, podem permitir qualquer coisa para solucionar a crise.
  5. Uma coisa não tenho dúvidas: a JBS soltou dinheiro para todo mundo para ter toda política brasileira amarrada. Bolsonaro, por quem não tenho toda essa simpatia, sentiu o risco e devolveu o que foi doado para campanha de seu filho. E alertou publicamente para o fato. Significa que vários políticos receberam dinheiro da JBS sem pedir, uma oferta “desinteressada”. Estamos sabendo a razão.
  6. Qualquer chance de recuperação da economia a curto prazo foi para o brejo a essa altura, qualquer que seja o desfecho. A crise vai piorar.

O que me leva a tentar formular a questão central disso tudo.

É possível fazer as reformas necessárias e gerar condições para um desenvolvimento econômico sem passar a política a limpo? Até agora eu achava que sim, que o governo Temer poderia fazer esse papel e tomar as medidas impopulares para entregar um país pelo menos com alguma ordem nas contas em 2018. Que a lava jato poderia ocorrer paralelo com uma recuperação emergencial da economia. Mas é possível realmente?

Começo a achar que vai ser necessário realmente o caos político, com muitas prisões e ruína econômica completa para termos alguma chance de ter um futuro. Do jeito que a coisa estava caminhando com Temer, teríamos uma pequena melhora, a volta a um desenvolvimento medíocre, até o próximo grupo populista acender ao poder e torrar nosso futuro todo novamente. O Brasil precisa colocar um fim ao ciclo crise econômica-estabilidade forçada- desenvolvimento medíocre, e talvez a solução mesmo seja o apocalipse.

Não nos iludamos. Não é possível punir os políticos sem punir a sociedade brasileira inteira junto com crise aguda, perda de confiança, desemprego e etc. A grande pergunta que temos que responder é se estamos dispostos a pagar esse preço.

brasil_por-um-fio

Para os leitores de Rene Girard, os próximos dias no Brasil serão bem interessantes. Embora os grampos até agora falem em Temer e Aécio, não há muita dúvida que vai atingir muita gente, de todos os partidos. O potencial para um crise mimética é grande, repetindo o que aconteceu ano passado. Para entender o pensamento de Girard, recomendo esta palestra. (Aviso: é uma palestra que vai mudar sua forma de ver o mundo. O poder da tese de Girard é extraordinário)

Qual foi a solução da crise ano passado? A classe política inteira, incluindo os petistas, apesar de todo teatro, ofereceram um bode expiatório para pacificar o ambiente. O impeachment foi em boa parte isso, o sacrifício de um dos seus para acalmar a todos e gerar a paz. Foi o que ocorreu. Do impeachment para cá, a política brasileira viveu um período de relativa paz, tanto que os políticos já começavam a tirar as mangas de fora para sepultar a Lava Jato. Quando falo políticos, refiro-me aos três poderes, pois os ministros dos tribunais superiores também são políticos, de toga, mas políticos.

Com a delação da JBS, nova crise já começa. A saída, como sempre, é o mecanismo do bode expiatório. Vai funcionar? Como Girard ensina, só funciona se todos estiverem convencidos que o bode é realmente culpado; caso contrário, a paz não se sustenta.

Serão dias interessantes.

 

Estamos chegando perto do meio do ano e já temos alguns lançamentos para acompanhar.

1. Chris Stapleton (From a Room: Volume I)

Mistura de country e southern rock. Prestem atenção nas músicas I Was Wrong e Without Your Love. Coisa fina. Candidatíssimo a melhor disco do ano.

https://open.spotify.com/embed/album/48lNtKwbQfwWsweRPdf16V

2. Father John Misty (Pure Comedy)

Música com alma, onde uma certa tristeza aparece a cada faixa.

https://open.spotify.com/embed/album/3CoFoDt6zt5EKxmTpOX32b

3. Blondie (Pollinator)

Sim, Deborah Harry e trupe estão de volta fazendo o que sabem de melhor: adaptar um som calcado no punk rock dos anos 70 com as tendências da música pop ao longo do tempo.

https://open.spotify.com/embed/album/6o4STrKI7oQoWppn6Nkdp5