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Parece que passou a fase de negação e os formadores de opinião estão se obrigando a lidar com uma realidade: Bolsonaro tem chances de ganhar as eleições. Estavam todos esperando que em algum momento ele despencaria das pesquisas assim que a população soubesse das suas opiniões e se esforçaram para transmiti-las, da pior forma possível, claro. Não adiantou. Ele só cresce. Agora começa aquela fase em que tentam arranjar uma explicação para o “fenômeno Bolsonaro”.

Besteira. A explicação é mais simples do que parece. Desde 1989 que o brasileiro não tem uma opção que não seja de esquerda para votar. Em qualquer país, a população vai mais ou menos se dividir entre dois impulsos básicos: conservar e mudar. Estes impulsos estão na origem da posição à esquerda ou à direita em questões políticas. Desde 2002 que, devido à polarização entre PT e PSDB, o eleitor de direita tem votado nos tucanos por pura falta de opção. Eu sempre soube que no dia que aparecesse um candidato com uma pauta de direita, estaria no mínimo no segundo turno. Pois está aí. Jair Bolsonaro é este candidato.

Não importa se seja bom ou ruim, é o único no campo da direita. O PSDB resolveu brigar pelo espólio da esquerda. Estão todos disputando a mesma fatia do eleitorado, menos Bolsonaro que está sozinho no outro campo. Enquanto estiver lá, vai nadar de braçadas. Não sei se é o suficiente para ganhar o segundo turno contra uma união das esquerdas, mas é o suficiente para disputar em segundo turno. Vença ou não, terá mostrado que há um eleitorado de direita em busca de candidatos. Já será um enorme serviço ao país.

Não estou aqui declarando nenhuma preferência, apenas mostrando o óbvio. Quando um país tem apenas partidos e candidatos de esquerda, está lutando contra a realidade. O mesmo aconteceria se só houvesse direita. São dois impulsos que existem em todas as sociedades, mudar e manter, não tem como fugir, é como a lei da gravidade. Retirar a possibilidade de expressão política de um dos lados, como aconteceu no Brasil na nova República, é criar condições para uma sociedade doente.

Isso é só o começo. Candidatos de direita abrirão caminho para partidos de direita. Quem resolver superar o medo dos formadores de opinião (mídia-intelectuais-artistas) e se colocar claramente como um partido de direita só terá a ganhar. Se for sozinho, conseguirá em pouco tempo uma boa representação no Congresso, de no mínimo 1/3. Sim, vão apanhar dia sim e dia também na Rede Globo, mas no fim terão seu prêmio. Basta ter coragem.

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Em Momentos Estrelares da Humanidade, Stefan Zweig escreve sobre o último discurso publico de Cícero, logo depois do assassinato de Júlio César:

O domínio exercido pela força viola qualquer direito, argumenta. A verdadeira harmonia em uma república só se pode produzir se o indivíduo, em lugar de tratar de tirar proveito pessoal de um cargo público, antepõe os interesses da comunidade aos privados. Somente se a riqueza não se desperdiça em luxos e na dissipação, senão que se administra e se transforma em cultura espiritual, artística, somente se a aristocracia renuncia a seu orgulho, e a plebe, em lugar de deixar-se subornar pelos demagogos e de vender o Estado a um partido, exige seus direitos naturais, somente então pode restabelecer-se a república.

Interessante que na República existe obrigações de todas as partes, ricos, aristocratas e plebe. Não se trata de democracia, a vontade da maioria não é soberana. Na república, prevalece os interesses da sociedade e não os dos indivíduos. O povo não pode “deixar-se subornar pelos demagogos e de vender o Estada a um partido”.

O Brasil tem que superar tudo isso para ter realmente uma república e não essa democracia perversa que nos transformamos.

Comecei hoje a ler dois livros.

O primeiro é uma biografia do Ortega y Gasset, de Gonzáles Serrano. O autor chama atenção, nas páginas iniciais, para a crítica de Ortega às generalizações, que sempre implica em um erro de perspectiva e, principalmente, ao erro de achar que podemos ter uma fórmula aplicada a cada situação particular. Justamente aí está o problema de tentar definir um conservador pelas teses que acredita: a principal delas é não acreditar que possa existir uma tese universal que seja válida em todas as situações. Diante de um problema real, um conservador tem que parar, estudar a situação particular, para tentar encontrar uma solução com base no bom senso. Justamente o contrário do pensamento de esquerda que vai querer aplicar um dos seus dogmas independente do caso real, como mostra o caso do menino Alfie na Inglaterra. Aplicou-se uma receita geral a uma caso particular sem levar em conta seus aspectos próprios, como a oferta do Vaticano de tratar o menino e a vontade dos pais.

El desarrollo de la vida no permite fórmulas mágicas, concepciones puramente racionales que puedan ser aplicadas a cada caso en particular.

O segundo livro é uma coleção de 12 ensaios do Stephan Zweig chamada Momentos Estrelares da Humanidade. A concepção é interessante. Zweig defende que a maior parte da história é composta por horas desinteressantes, que culminam em alguns momentos decisivos, que impactam profundamente a história. Não que nada aconteça nestes períodos, pelo contrário. Estes acontecimentos pontuais concentram um longo desenvolvimento que culminam em uma decisão, uma ação ou mesmo não ação.

O primeiro ensaio é sobre Cícero e Zweig ressalta que ao ser exilado por Julio César, ele ganha o necessário distanciamento da vida pública e pode se voltar para si mesmo e refletir sobre sua vida e as coisas que realmente importam, os acontecimentos particulares. Lembrei-me da derrota eleitoral de Churchill em 1945, que lhe permitiu refletir sobre os acontecimentos da II Guerra Mundial. Acho que Deus age nestas horas para permitir o exílio desses grandes espíritos, beneficiando todos nós com a organização dos pensamentos que muito nos ajudam posteriormente.

Tem discos que despertam mais que simples memórias, nos lembram estados de espírito. Estão associados a determinadas épocas que passávamos por transformações ou estados emocionais intensos.

Leave Home é um destes discos. Quando pensamos Ramones, pensamos no rock direto e visceral que salvou o próprio estilo do pedantismo que estava chegando. Foi como trazer de volta às origens, quando o rock conquistou a garotada no mundo inteiro por sua simplicidade, ritmo e temática. No entanto, neste disco é a melancolia de Joey cantando temas como Swallow my Pride e What’s Your Game que mais me tocam, provavelmente pelo estado de espírito que tinha na época, no alto dos meus 18 anos.

Como é bom voltar no tempo! Tão longe e ao mesmo tempo tão perto pela música. Um dia um primo me disse que o rock passa quando envelhecemos, que perde a graça. Quase 20 anos depois eu ainda sinto o sangue aquecer ao escutar os acordes básicos do Johnny Ramone e o baixo do Dee Dee. Para mim, eles serão eternos.

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Uma das vantagens de resolver não opinar sobre o que não sabe, é poder aguardas e observar os acontecimentos. Não sei o que move a chamada greve, ou lockout, nem o que pretende. Também não confio na imprensa para saber por ela. Ou seja, estou no escuro, como acho que quase todo mundo está. É libertador não ter que automaticamente ficar do lado ou contra qualquer coisa que aconteça.

Entretanto, sinto algo de diferente neste movimento. Não creio que tenha sido arquitetado por sindicados ou movimentos de esquerda. Acho que eles estão tão confusos quanto nós. Talvez este movimento seja o início. Mas de que?

Bem, do enfrentamento da sociedade ao poder avassalador, e um tanto ilusório, do estado. Em 1985 iniciamos a Nova República. Seu mito fundador é que os militares era os vilões e, agora, com a democracia plena, simbolizada pelas eleições diretas para presidente, iniciava-se uma nova era. A direita não existia neste concerto, apenas como espantalho. Todos os partidos, que começariam a se multiplicar como coelhos, seriam de esquerda. Diante do silêncio envergonhado da direita, passamos a ter décadas de discurso único nas universidades, imprensa e cultura em geral. Criou-se o clima para que duas pessoas completamente inadequadas fossem aceitas como presidentes, mesmo que tivessem valores e idéias completamente opostas da maioria da população.

Se existe uma coisa que liga todos os governos da Nova República foi a crescente imposição de impostos nos três níveis da administração. O resultado é uma economia que se acredita ser praticamente dominada direta ou indiretamente pelo estado. Tecnicamente estamos em uma economia fascista ou bem perto dela. O espírito do brasileiro desceu ao nível mais baixo de sua história. Ninguém mais acredita que seremos algo melhor do que somos, o ressentimento aflora cada vez mais, a indiferença e melancolia crescem a cada dia. A relação do brasileiro com a seleção talvez seja a melhor evidência deste estado de coisas. Nunca o Brasil foi tão apático para uma Copa do Mundo, um evento que literalmente parava o país.

Pois a Nova República chegou no limite. Não sei o que vai acontecer, mas acho que uma hora todo este espírito mortificado da nossa sociedade vai se rebelar de vez, como ensaiamos em 2013 e 2016. Não sei se o resultado; nada garante que ficaremos melhor. A Revolução Francesa transformou a maior país da europa em um ditadura para depois entrar em uma sucessão de crises políticas que ainda não terminou. Por outro lado, a revolução americana e inglesa construíram duas grandes nações. Não creio que tenhamos estadistas para o desafio; pelo menos não ainda.

A greve mostrou que o governo é poderoso, mas se sustenta por pilares frágeis, sendo o principal o espírito submisso do brasileiro perante o estado. Sempre dá para empurrar mais uma safadeza, mais uma lei apertando o controle. Diante da paralisação dos caminhoneiros, o governo ficou perdido e a classe política não sabe nem o que pensar, quanto mais o que deve ser feito. O grande perigo dessa greve é o brasileiro entender que deve assumir o destino de seu país e se rebelar. Aí, não terá quem segure.

mondayFiquei bem impressionado com essa produção original NETFLIX (Onde Está Segunda?, 2017). Trata-se de uma distopia. O mundo está superpovoado e uma mutação devido a manipulação de alimentos provoca um surto de nascimento de múltiplos gêmeos. A solução é instituir um programa de filhos únicos em que os demais irmão são congelados para que os cientistas resolvam o problema de alimentação e eles sejam descongelados no futuro, com o problema resolvido.

Acho impressionante como o fantasma malthusiano continua a assombrar muita gente e volta e meia surja um filme que trata do problema populacional. Confesso que quando viajo de avião, só vejo uma imensidão de espaços vazios, mesmo passando pelo Estado de São Paulo. Talvez o fato de grande parte do mundo ocidental estar vivendo em grandes cidades explique a sensação de um mundo super povoado.

De qualquer forma, o filme é muito bem feito, com grande dose de tensão ao mostrar a luta de sete irmãs gêmeas que conseguem a proeza de chegar aos 30 anos como se fossem uma só. O segrego é que cada dia da semana, só uma pode circular enquanto as demais ficam escondidas no apartamento. Só que algo dá errado e Segunda (cada uma tem um nome da semana) não retorna. Sem saber o que aconteceu, as demais começam a descifrar o enigma.

Sistemas totalitários se constroem com a destruição de laços de solidariedade construídos historicamente, como a família. Não é diferente neste filme, onde a união das irmãs é sua força contra o Estado, e a desunião sua fraqueza. Assistam e descubram o que aconteceu com Segunda.