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Archive for the ‘Sociedade e Cultura’ Category

Desabafo

Estou de saco cheio.

Existem pessoas que não admitem que você fale em civilizações mais avançadas do que outras. No entanto, se seu país não aceita que se mate bebês, idosos, ou que as pessoas possam se drogar na boa, você mora em um país atrasado. Os ditos países mais avançados do globo, segundo estes mesmos que dizem que todas as culturas são iguais, praticam algo muito próximo da eugenia, mas atrasado é você que defende conceitos superados como família, tradição e religião.

Estou sinceramente cansado de defender livre mercado contra pessoas que defendem o socialismo, ancorados em polpudos salários pagos pelo estado e com aposentadoria top. Nenhuma religião presta, desde que esta religião seja a de Cristo. Qualquer outra é sinal de avanço e progresso.

Liberdade de expressão? Claro. Desde que seja para dizer o que estes iluminados pensam. Falar em verdade é superstição, coisa de atraso. Mas tudo que estas pessoas falam é sinal de verdade. Você deve duvidar de tudo, dizem elas, menos o que eu estou te dizendo.

Eu não posso mais dizer algo que está escancarado, a vistas de todos, se esta realidade pode ofender alguém mais sensível. Mas se o ofendido for alguém ou algo identificado com alguma suposta perseguição do passado, tipo homem branco cristão, aí pode. Vale chamar de assassino, estuprador em potencial, desumano. Absolutamente tudo. 

Por isso parei de discutir publicamente sobre um monte de coisas. Estou de saco cheio. O mundo foi tomado por hipócritas e não vai mudar tão cedo.

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D Pedro I era um jovem voluntarioso, que tinha seus ideais de grandeza. Queria, como todo príncipe, ser um estadista, definir os rumos de uma nação.

Leopoldina era a herdeira de uma tradição. Ela tinha a perfeita noção do sentimento do dever, talvez o valor mais importante para um verdadeiro líder. Junto com Joaquim Nabuco, que representava os ideais de uma verdadeira democracia representativa, ela estava ao lado do Imperador para apontá-lo para o caminho certo.

Só que do outro lado, havia Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. Ela representava a sensualidade, o agora, a urgência, o sonho de grandeza sem esforço, a política dos protegidos, a falsidade do próprio título. Ela era a mais bela, a mais interessante.

D Pedro rejeitou Leopoldina, que morreu de desgosto por não ter mais influência sobre o marido. O dever é sempre chato e feito; o prazer é belo.

O Brasil foi fundado neste episódio e vive nele até hoje.

Somos D Pedro que eternamente escolhe a Marquesa de Santos em detrimento de Leopoldina.

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Brasília é um atentado contra o indivíduo. Um monumento ao stalinismo, produto da mente de um comunista, que faz o homem se sentir pequeno diante do estado, para entender sua situação de dependência. É meu destino para o próximo ano, mas não sou obrigado a gostar, apesar do conforto relativo que nos proporciona.

Comparam com Washington; uma bobagem. Esta foi claramente inspirada em Atenas. Brasília, no inferno comunista. O homem sempre será uma formiga naquele pesadelo de concreto armado, onde não há lugar para aderência de uma cultura. É a rejeição à tradição; uma cidade construída de uma maneira que nunca mudará. Uma paisagem eternamente feia e opressora.

Tenho muitos amigos que a amam. Não duvido. O brasileiro também ama o estado, que o oprime o tempo todo, sem perceber. Brasília é um sucesso, pois consegue, como o estado, ser amada como se fosse uma grande protetora e não o sintoma de uma grande doença.

Brasília tem luz, Brasília tem carros
(Carros pretos nos colégios)
Brasília tem mortes, tem até baratas
(em tráfego linear)
Brasília tem prédios, Brasília tem máquinas
(Servidores Públicos ali)
Árvores nos eixos a polícia montada
(polindo chapas oficiais)
Brasília, (Brasília)

(Plebe Rude)

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Não são nem oito da noite e estou aqui no Aeroporto do Galeão, no Erre Jota. Foi difícil conseguir um lugar para sentar. Com tão pouca gente é realmente complicado escolher. Preciso carregar o celular? Sem problemas. Tem tomada livre para tudo que é canto. Uma maravilha.

O problema é que essa brincadeira nos custou muito dinheiro, não é mesmo? Um dos problemas da solução keynesiana é que, cedo ou tarde, acabamos com elefantes brancos como esse. Como quase tudo que foi construído para os Jogos Olímpicos, aliás. Se até para usar o Maracanã está complicado, imaginem as demais arenas (no meu tempo, estádios). Ociosidade para tudo que é canto.

O importante é gerar emprego, dizem. Pois o Rio gerou, aos montes. Agora o estado está quebrado e a prefeitura anuncia que não consegue pagar salários a partir de outubro. Craqueiros e mendigos tomaram as esquinas e praças da cidade. Naturalmente o banheiro desse povo são as árvores e calçadas. O Rio virou isso, um grande banheiro ao céu aberto, com a violência crescendo sempre mais, o que o carioca, infelizmente, já aprendeu a conviver como se fosse um fato pitoresco. Transformam até em atração turística. Vamos passear na Maré?

O pior é que as pessoas parecem não ligar. Um preço a pagar para morar nesse estranho paraíso.

E o aeroporto, vazio. Dinheiro desperdiçado. Nosso dinheiro.

Mas valeu a festa, não é verdade?

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Eu não sei se há um aquecimento global como acredita a maioria das pessoas e, muito menos, se existir, que seja causado por nós humanos. Sócrates já advertia que a opinião da maioria não é critério seguro na busca da verdade. Acho a coisa muito fantasiosa e alarmista para realmente ser verdade, ainda mais quando vejo muitas pessoas que costumam estar erradas com quase tudo defenderem com afinco esta causa. Falta-me disposição para pesquisar a fundo a questão, mas não falta a quase todos que opinam com tanta segurança a respeito?

Independente da veracidade do aquecimento global, vejo um aspecto que nunca esteve em disputa, que é provado pela nossa experiência direta, o aquecimento local. Não sei se o pum das vacas ou o aerosol causam o aquecimento do planeta, mas tenho razoável certeza que a poluição das cidades fazem um mal danado para seus habitantes, inclusive tornando as cidades mais quentes.

Lembro que na minha juventude a preocupação com a poluição local era muito grande e as fábricas eram as grandes vilãs. É uma característica de nosso tempo que as causas globais mobilizem muito mais, especialmente financeiramente. Sem entrar no mérito do aquecimento global, creio que atacar localmente o problema da poluição não atrapalha e talvez até ajude. Mas quem se importa com o local em tempos de tanta importância?

O risco é, no afã de solucionar os grandes problemas, deixarmos de lado os que podemos realmente lidar de forma pragmática, os que estão realmente ao alcance de nossas mãos.

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A campanha de marketing lançada ontem pela Amazon br já foi para o vinagre. Imagino que esteja rolando um gerenciamento de crise nesse momento. Não sei se a idéia foi do pessoal do marketing ou de alguma executivo da empresa, mas capricharam na bobagem. Resolveram usar o nome da empresa para atacar o prefeito de São Paulo em uma iniciativa que ele tem amplo apoio popular, o combate à pixação.

Receberam uma resposta bem humorada do prefeito, que jogou a empresa contra a parede. De quebra, pelo menos três concorrentes estão usando a publicidade da própria amazon para fazerem propaganda. Olha, estão de parabéns!

Não é a primeira vez que uma marca resolve fazer lacração esquerdista para parte de seu público. No início do ano o presidente da Starbucks resolver seguir este caminho e terminou sofrendo campanhas de boicote. Agora foi a vez da Amazon br.

Esse pessoal não entendeu ainda que o vento está mudando. Que o público em geral cansou dessa baboseira progressista e que há muita revolta acumulada, querendo um motivo para extravasar. Quem apostar no lacre, vai dar com os burros n’água.

E ainda nem começaram os memes!

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Não é segredo  que a vitória de Trump nas eleições de 2016 foi um duro golpe para Hollywood. Da mesma forma que no jornalismo e na academia, a desproporção em favor dos liberais (como os americanos chamam a esquerda) é muito mais acentuada lá do que na média da população. O ator Mark Wahlberg, uma exceção, disse ano passado que Hollywood vivia numa bolha e não tinha noção da realidade do país. Mas, é verdade? Vive realmente Hollywood em uma bolha? Vive uma realidade à parte?

Eric Voegelin e a segunda realidade

O cientista político Eric Voegelin (1901-1985) estudou a fundo o problema da segunda realidade, tomando emprestado um termo criado pelo romancista Robert Musil. Ele identificou o fenômeno em que determinadas pessoas, incapazes de aceitar o mundo em que viviam, seja por revolta ou por tédio, criavam um mundo paralelo baseado em algumas premissas simples, que não poderiam ser contestadas. Peço ao prezado leitor que repare no termo tédio. Voltaremos a ele, em breve.

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Eric Voegelin

O mundo, tal como se apresenta, é a segunda realidade. As pessoas que não conseguem aceitá-lo sobrem de uma doença no nível espiritual, uma doença da alma (pneumopatologia). São doenças que não podem ser tratadas como psicológicas. O método de fazer a pessoa aceitar sua situação real pode ter consequências trágicas, como se verá.

 

O doente escolhe ou cria uma segunda realidade para viver, normalmente mais excitante e que confere um sentido a sua existência. Este fenômeno foi muito melhor descrito na literatura do que por cientistas sociais, que em geral não conseguem enxergar as coisas do espírito. Assim temos obras como O Homem Revoltado, de Camus, o Julien Sorel de O Vermelho e o Negro, e Raskolnikov em Crime e Castigo. Todos exemplos de segunda realidade. Mas é em Dom Quixote que Voegelin mostra o mecanismo em ação.

A Segunda Realidade em Dom Quixote

Don Quixote, entediado com o mundo em que vivia, criou uma segunda realidade em que é um cavaleiro andante. Sancho Pança, seu fiel escudeiro, vive na primeira realidade e enxerga os moinhos de vento enquanto Don Quixote vê gigantes. Sancho tenta fazer uma mediação entre as duas realidade, sem muito sucesso.

donquijoteysanchoEm uma de suas expedições, Don Quixote vai parar em uma corte, onde já sabem quem ele é. Esta corte, entediada, resolve participar do jogo e finge acreditar que ele realmente é um cavaleiro famoso. Ou seja, ela mergulha nas segunda realidade. Um estranho fenômeno então ocorre; a corte se diverte tanto com a segunda realidade que tem cada vez menos desejo de retornar à primeira. Ela mesma começa a acreditar na estória que criou.

A rendição à segunda realidade é simbolizada também pelo próprio Sancho, que acaba por acreditar nas recompensas prometidas por Dom Quixote, como ser governador de uma ilha. Ele descobre que acreditar na segunda realidade é muito mais interessante que viver na primeira.

Então temos o cura. O despropósito de Dom Quixote o atinge pessoalmente. Ao mesmo tempo que consegue ver corretamente a loucura do cavaleiro, falta-lhe a compaixão necessária para lidar com a situação. Como o irmão do filho pródigo, quer ter razão e provar seu ponto. Ele não aceita a felicidade de Dom Quixote e não descansa até mostrar a ele sua loucura. O cura age como o psicólogo moderno, tentando fazer o doente tomar consciência de sua situação. O problema é que a doença é espiritual, algo muito além da ocupação do nosso bom médico.

Dom Quixote finalmente aceita a realidade, mas cai em profunda melancolia e morre. O retorno à primeira realidade não resolveu o problema que o fez negar o mundo na primeira vez. Temos então, na pena de Cervantes, os tipo: Dom Quixote, Sancho, a corte, o cura. Voltemos a Hollywood.

Florence Foster Jenkins

O filme de Stephen Frears conta a estória, baseada em fatos reais, de Florence, uma rica herdeira, patrona da música em New York da primeira metade do século XX. É interpretada por Marylin Streep, um dos símbolos da alienação de Hollywood apontada por Wahlberg.

Apaixonada por música, pianista na infância, ela sofre de sífilis desde os 19 anos, contraída do primeiro marido. Em consequência, perdeu o movimento de uma das mãos e não pode se dedicar ao instrumento, canalizando sua atenção para o patronato. Mas não foi suficiente. Ela toma aulas particulares de canto, sob aplausos de toda uma rede que a protege e a impede de ver sua incrível falta de talento. Há um motivo bem prático para manter a farsa. Ninguém quer que ela se desiluda com a música e feche seu generosos talão de cheques.

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Florence e St Clair

Está criada, então, a segunda realidade, em que Florence é uma talentosa cantora amadora de ópera. Não se trata apenas de interesse financeiro. Como St. Clair, o segundo marido e principal mediador da segunda realidade, afirma ao pianista Cosmo, a vida de Florence é muito mais divertida e excitante. Novamente aparece o tédio como uma das razões para a segunda realidade. Como a corte em Dom Quixote, uma sociedade se forma em torno de Florence, pronta para bajular e aplaudir.

Cosmo é o Sancho Pança da estória. Ele tem perfeita consciência da inadequação da patroa, mas recebe muito bem para manter a farsa. É curioso que ele mesmo é um músico comum, sem talento especial, como exclamam atônitos  os pianistas que aguardavam para um teste em que foram preteridos, sem serem ouvidos, por Cosmo. Florence não só era incapaz de cantar, mas não tinha ouvido para distinguir a boa música da trivial. O mesmo acontecia com a corte que a bajulava.

O padrão se repete. Quanto mais a segunda realidade dura, mas as pessoas acreditam nela. É o que acontece com a loira fútil, que não se aguenta na primeira apresentação de Florence, caindo na gargalhada, mas que aos poucos aceita seu papel e termina condenando o mesmo comportamento  nos soldados que assistem ao espetáculo do Carnegie Hall. A rendição de Sancho se repete em Cosmo, que balbucia após o terrível espetáculo: “eu toquei no Carnegie Hall!”

O cura reaparece como o jornalista do Post, que pretendendo defender a verdade objetiva e faz uma crítica devastadora à Florence e sua corte. Também falta-lhe compaixão e quer apenas ter razão. Ele se julga melhor do que os outros, o que é sempre um grave pecado. Que o cura seja agora um jornalista, mostra a transição da classe intelectual no tempo.

A crítica do jornalista faz Florence retornar à primeira realidade, em que é apenas um velha senhora deformada e sem talento. Como Dom Quixote, ela não suporta a melancolia e morre. O despertar destas pessoas tem consequências trágicas. Como dizia T. S. Eliot, “o homem não é capaz de aceitar tanta realidade“.

Hollywood e o Oscar

O mergulho da segunda realidade de Florence e Dom Quixote se repete em Hollywood e sua corte. Artistas e profissionais do cinema abraçaram a visão liberal do mundo como poucos indivíduos o fazem, e chegam ao extremos de ignorar completamente a realidade econômica, a condição humana e a religiosidade do homem comum. Na segunda realidade de Hollywood, criticar um presidente significa um ato de coragem, milionários defendem o comunismo, abandonar Deus é um progresso e a paz é um problema simples de resolver. Por isso, Wahlberg está certo quando diz que Hollywood perdeu a sintonia com o povo americano. Em sua maioria, atores e diretores, não possuem idéia da realidade do americano comum e só o enxerga por esteriótipos.

89th Academy Awards - Oscars Awards Show

A corte

Tudo isso culmina no Oscar, que é também um mecanismo farsesco de auto-referenciação. Não se premia os melhores, mas uma visão de mundo. Não quer dizer que não vença também filmes conservadores, mas esse conservadorismo tem que estar de alguma forma escondido para que a corte não o perceba. O que, convenhamos, não é muito difícil de fazer levando em conta o nível de compreensão desse pessoal.

 

Hollywood é Florence Foster Jenkins. Ela acha que está representando a américa. Não está e cada vez mais o divórcio é escancarado. Vejam o exemplo de Marylin Streep. Uma atriz talentosa? Sem dúvida!, mas não o suficiente para ter 21 indicações, colocando-a em uma espécie de patamar superior de qualidade, acima de todas as demais. Foi aplaudida de pé no Oscar deste ano. Como Florence e sua corte.

A questão que fica é o que acontecerá ao fim de tudo. Hollywood sobreviverá ao choque de realidade? Terá o mesmo destino de Florence e Dom Quixote? Talvez já esteja acontecendo. Cada vez mais quem realmente tem algo a dizer está migrando para a televisão e a internet. A segunda realidade está se desfazendo e o público das redes sociais seja o novo cura.
Finalizando, fico a pensar se não estamos cometendo o mesmo erro do cura e do repórter. Será que não estamos muito preocupados em ter razão? Será que mais importante do que fazer a pessoas cair na realidade não seria fazê-la ver que a realidade merece ser amada para só então desfazer o feitiço? De que adianta salvar um paciente matando-o?

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