Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Literatura’ Category

Crônicas

Há um lugar comum que crônicas são textos leves sobre o cotidiano. Muitas vezes está correto, mas nem sempre; pode ser profundo também; pode ser bem triste.

Esta semana li e estudei uma crônica do Nelson Rodrigues. Faz parte de um conjunto que crônicas que escreveu sobre suas próprias memórias. A crônica que li, que ficou conhecida como A Menina, mas que não recebeu título do Nelson (é apenas a número 10 de seu livro de memórias), trata do nascimento de sua filha Daniela. É genialidade pura e destrói todo este lugar comum de texto leve sobre o cotidiano.

Obrigado ao professor Rodrigo Gurgel por tê-la apresentada em seu curso.


Para quem gosta de literatura, os cursos do professor são impagáveis. Confira em sua página.

 

 

 

Anúncios

Read Full Post »

Comecei hoje a ler dois livros.

O primeiro é uma biografia do Ortega y Gasset, de Gonzáles Serrano. O autor chama atenção, nas páginas iniciais, para a crítica de Ortega às generalizações, que sempre implica em um erro de perspectiva e, principalmente, ao erro de achar que podemos ter uma fórmula aplicada a cada situação particular. Justamente aí está o problema de tentar definir um conservador pelas teses que acredita: a principal delas é não acreditar que possa existir uma tese universal que seja válida em todas as situações. Diante de um problema real, um conservador tem que parar, estudar a situação particular, para tentar encontrar uma solução com base no bom senso. Justamente o contrário do pensamento de esquerda que vai querer aplicar um dos seus dogmas independente do caso real, como mostra o caso do menino Alfie na Inglaterra. Aplicou-se uma receita geral a uma caso particular sem levar em conta seus aspectos próprios, como a oferta do Vaticano de tratar o menino e a vontade dos pais.

El desarrollo de la vida no permite fórmulas mágicas, concepciones puramente racionales que puedan ser aplicadas a cada caso en particular.

O segundo livro é uma coleção de 12 ensaios do Stephan Zweig chamada Momentos Estrelares da Humanidade. A concepção é interessante. Zweig defende que a maior parte da história é composta por horas desinteressantes, que culminam em alguns momentos decisivos, que impactam profundamente a história. Não que nada aconteça nestes períodos, pelo contrário. Estes acontecimentos pontuais concentram um longo desenvolvimento que culminam em uma decisão, uma ação ou mesmo não ação.

O primeiro ensaio é sobre Cícero e Zweig ressalta que ao ser exilado por Julio César, ele ganha o necessário distanciamento da vida pública e pode se voltar para si mesmo e refletir sobre sua vida e as coisas que realmente importam, os acontecimentos particulares. Lembrei-me da derrota eleitoral de Churchill em 1945, que lhe permitiu refletir sobre os acontecimentos da II Guerra Mundial. Acho que Deus age nestas horas para permitir o exílio desses grandes espíritos, beneficiando todos nós com a organização dos pensamentos que muito nos ajudam posteriormente.

Read Full Post »

Neste vídeo eu explico o que uma peça de Eurípedes de 430 A.C. tem a ver com o drama enfrentado por Wiston Churchill em maio de 1940.

 

Read Full Post »

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Read Full Post »

A Beleza Salvará o Mundo?

fiodor_dostoievski_a_beleza_salvara_o_m_ol

Vivemos uma época de guerra cultural, de conflitos ideológicos entre visões de mundo contrastantes, todas pretendendo  representar a verdade e a bondade. Por isso é tão difícil discutir na atualidade; não há um terreno comum para que se busque convergências e se entenda a divergência. Tudo é uma guerra de conversão, seja de infiéis ou ignorantes.

Para Gregory Wolfe, essa guerra não será resolvida pelo poder da argumentação ou pela imposição da realidade. A única possibilidade de salvação desse conflito sem tréguas é através de uma dimensão que foi rebaixada à auxiliar destas forças em conflito, a dimensão da beleza. Por isso, Wolfe foi buscar na frase de Dostoievsky a insipração de sua tese: “a beleza salvará o mundo”.42962974

Wolfe parte de dois pontos de partida interessantes para desenvolver sua argumentação. O primeiro foi a teoria do padre jesuíta John O’Malley expressa no livro “Four Cultures of the West”. Há quatro grandes culturas em permanente iteração no ocidente: a cultura profética dos religiosos,  a cultura acadêmica/profissional dos intelectuais e cientistas, a cultura humanista de escritores e poetas, e a cultura artística de pintores, escultores, e etc. Essas culturas possuem pontos de contato e muitas vezes se completam; mas muitas vezes travam batalhas.

A segunda teoria apropriada por Wolfe é a dos três transcendentais da filosofia clássica, especialmente em Aristóteles. São três os bens supremos: o bom, o belo e a verdade. Mais que isso, são expressões de uma mesma realidade. Os três transcendentais orientam a vida humana. São bens em si mesmos, não são caminhos para obter outro bem.

Wolfe faz então a conexão das duas teorias: a cultura profética relaciona-se com o bom; a acadêmica/profissional com a verdade; a humanística e artística com o belo. Uma sociedade será harmônica à medida que estas três dimensões (e quatro culturas) também o sejam.

E o que vemos na modernidade? Ideólogos, à esquerda e à direita, que se colocam como profetas da bondade ou donos do conhecimento, relegando o belo a uma função auxiliar nas guerras culturais que promovem. Trata-se de um rebaixamento da arte.

Apesar de sua origem conservadora, Wolfe se afastou do movimento conservador norte-americano por entender que este se desconectou com a realidade ao declarar que qualquer arte ou literatura contemporânea é inferior e desprezível. Eles se fecharam ao belo e transformaram a cultura em um museu, esquecendo que a posição conservadora é de uma cultura viva, sempre se renovando.

Wolfe dedica-se a entender o humanismo e a arte a partir de sua relação com as religiões tradicionais, particularmente a cristã, retomando o entendimento do humanismo cristão. Ele não faz apologia de autores e obras que se limitam a fazer pregação, repetindo o erro da ideologia. A arte deve ser uma expressão da condição humana, relacionando-se como o bom e a verdade, mas mostrando o homem em sua realidade. Um humanista cristão mostrará os paradoxos e as dúvidas existenciais de uma realidade que o homem não compreende totalmente mas é convidado a aceitar.

A partir dessas idéias, Wolfe apresenta pequenos ensaios sobre escritores, poetas e artistas que expressam essas ligações entre os três transcendentais e as culturas correspondentes. Ele apresenta uma alternativa para as engessadas fórmulas de crítica, a maioria oriunda das universidades, que dominam a cultura a ponto de sufocá-la. Entender a arte como expressão do belo, mas conectada ao bom e à verdade é a chave para contemplar a beleza e seu papel fundamental para o desenvolvimento da imaginação, uma faculdade do espírito essencial para compreender a realidade. Como ressalta Wolfe:

Padre O’Malley me ajudou a ver porque me tornei um defensor da beleza como um agente necessário para tornar os apelos da verdade e bondade significativos.

Para concluir, vale a pena reproduzir um trecho de um poema de Milosz, que Wolfe usa para terminar seu preciso livro:

E quando as pessoas deixarem de acreditar que há bem e mal,

Somente o belo os chamará e salvará,

Para que ainda saibam como dizer: isto é verdadeiro e aquilo não.

Czeslaw Milosz

Read Full Post »

Tzvetan Todorov (1939-2017)

Tzvetan Todorov c John Foley Opale

Deixou-nos hoje um verdadeiro intelectual, o búlgaro Tzvetan Todorov, que conheci a partir das aulas do Rodrigo Gurgel.

Dos três livros que li dele, o que mais me impactou foi o breve A Literatura em Perigo. Nele, Todorov mostra os três grandes monstros que estão destruindo a literatura e corromperam seu estudo nas escolas: o formalismo, o solipsismo e o niilismo. Nada é mais importante na literatura do que o sentido das obras, justamente o que é negligenciado pela análise crítica atual e pelos professores, até porque a maioria não é capaz de entender as obras que estudam. 

Que descanse em paz!

Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. 

Tzvetan Todorov

A Literatura em Perigo

Read Full Post »

Conservadores: alegria!

Alguns conservadores tem o péssimo hábito de cultivar o mau humor. O atual papa, que confesso não ter muita simpatia, disse algo logo no início de seu papado que guardei: o cristão tem que ser, sobretudo, alegre. O Nobel de Dylan mostrou essa face ranzinza de muitos, inclusive de alguns por quem tenho a mais absoluta admiração, diga-se. Parece que a arte já foi consolidada, e nenhuma forma  moderna é válida. Só vale o que se chama de clássico.

Esse artigo de Fernando Escorsim coloca o ponto com mais propriedade.

Apenas retomo o que aprendi com Peter Kreeft e Mortimer Adler: para julgar temos primeiro que entender. Não estou convencido que:

1. composições musicais não possam ser literatura;

2. as composições de Bob Dylan não sejam dignas de ser chamadas de boa literatura.

Como já disse aqui, pouco conheço de sua obra. Passei a última semana estudando, e apreciando, o disco Blood on Tracks. Uma maravilha. Vejam esses versos:

 

People see me all the time and they just can’t remember how to act

Their minds are filled with big ideas, images and distorted facts

Even you, yesterday you had to ask me where it was at

I couldn’t believe after all these years, you didn’t know me better than that

(Idiot Wind)

 

Sundown, yellow moon, I replay the past

I know every scene by heart, they all went by so fast

If she’s passin’ back this way, I’m not that hard to find

Tell her she can look me up if she’s got the time

(If You See Her, Say Hello)

 

I was in another lifetime one of toil and blood

When blackness was a virtue and the road was full of mud

I came in from the wilderness a creature void of form

Come in she said, I’ll give you shelter from the storm

(Shelter From The Storm)

 

bob_dylan_blood1

Read Full Post »

Older Posts »