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Archive for the ‘Esportes’ Category

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Neymar divide opiniões. No Brasil. Fora não há divisão nenhuma; ganhou antipatia de todos. Estou vendo isso aqui em Bogotá.

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Jogou bem as duas últimas partidas. Está numa crescente, com tudo para arrebentar nos jogos finais. Se quer conseguir cartões e faltas, tem que rolar menos. Atuação exagerada macula.

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“Essa é a Bélgica? Ganhamos fácil”. Em copa, cada jogo é uma estória. Tem time bom que só aparece na hora certa. Na última copa a Alemanha penou para passar pela Argélia e empatou na primeira fase com Gana. Fácil esquecer isso depois do título.

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Bélgica virou dois gols no segundo tempo de um jogo eliminatório. Não é pouca coisa. Se fosse Brasil, estaríamos exaltando um feito.

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Somos acostumados a pensar no Brasil como a equipe a ser batida. Não aprendemos nada.

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A última vez que o Brasil teve uma equipe claramente superior em uma Copa foi em 2006. E perdemos contra uma França que jogou taticamente perfeita. Bem fechada, em função da genialidade da dupla Zidane-Henry. Hoje somos mais esta França que aquele Brasil.

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Sempre achei chato o estilo espanhol, mesmo quando dava certo. Agora que aprenderam a lidar com ele, continua chato e não funciona.

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Nos anos 1990 parecia claro que a África estava perto de chegar longe em uma Copa. Enganamo-nos todos. Perderam o que tinham de bom (velocidade, força física, ousadia) e se tornaram cópias inferiores dos Europeus. Curiosamente a Ásia cresceu e não tem feito feio nas Copas, especialmente Coréia do Sul e Japão.

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O que raios fazem tantos times da América Central na Copa? Honduras, Panamá e Costa Rica. Dois três, só cabia vaga para um.

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48 países na próxima copa? Grupos de três? Claro que dá pare entender a equação política (cada novo aumento implica em votos para permanecer no poder). Havelange fez isso em 1982 (24), Blatter em 1998 (32). Esse último número é perfeitamente defensável. 48 é uma aberração.

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Tenho Algumas Coisas a Dizer

Encontrei hoje este impressionante relato no facebook. Como não o encontrei em página web, resolvi transcreve-lo aqui no blog. Boa leitura pois é realmente impressionante.

TENHO ALGUMAS COISAR A DIZER

Eu me lembro do momento exato em que soube que estávamos quebrados. Ainda consigo visualizar minha mãe na geladeira e o olhar no rosto dela.

Eu tinha seis anos de idade e cheguei de casa para almoçar durante o intervalo da escola. Minha mãe me dava a mesma coisa todos os dias: pão e leite. Quando você é uma criança, nem pensa sobre isso. Mas acho que era tudo que podíamos comprar.

Naquele dia, eu cheguei em casa e entrei na cozinha e vi minha mãe na geladeira com uma caixa de leite, como sempre. Mas, naquela vez, ela estava misturando algo. Ela estava balançando, sabe? Eu não entendi o que estava acontecendo. Ela me trouxe o almoço e estava sorrindo, como se tudo estivesse bem. Mas eu percebi na hora o que estava acontecendo.

Ela estava misturando água no leite. Não tínhamos dinheiro suficiente para o resto da semana. Estávamos quebrados. Não apenas pobres, mas quebrados.

Meu pai havia sido um jogador profissional de futebol, mas estava no fim da sua carreira e não havia mais dinheiro. A primeira coisa que perdemos foi a TV a cabo. Acabou o futebol. Acabou o Match of the Day (famoso programa esportivo britânico). Acabou o sinal.

Chegava em casa à noite e as luzes estavam apagadas. Sem eletricidade por duas, três semanas de uma vez.

Eu queria tomar banho, e não havia mais água quente. Minha mãe esquentava a chaleira no fogão, e eu ficava em pé no chuveiro jogando água quente na minha cabeça com um copo.

Houve ocasiões em que minha mãe precisava pedir pão “emprestado” da padaria no fim da rua. Os padeiros nos conheciam, eu e meu irmãozinho, então deixavam que ela pegasse uma fatia de pão na segunda-feira e pagar apenas na sexta.

Eu sabia que tínhamos problemas. Mas, quando ela estava misturando água no leite, eu percebi que já era, sabe? Essa era nossa vida.

Eu não disse uma palavra. Não queria estressá-la. Eu apenas comi meu almoço. Mas eu juro por Deus, eu fiz uma promessa a mim mesmo naquele dia. Era como se alguém tivesse estalado os dedos e me acordado. Eu sabia exatamente o que precisava fazer e o que iria fazer.

Eu não podia ver minha mãe vivendo daquele jeito. Não, não, não. Eu não aceitaria aquilo.

As pessoas no futebol amam falar sobre força mental. Bom, eu sou o cara mais forte que você vai conhecer. Porque eu me lembro de me sentar no escuro com meu irmão e minha mãe, rezando, e pensando, acreditando, sabendo… que um dia aconteceria.

Não contei minha promessa para ninguém por um tempo. Mas, alguns dias, eu chegava em casa da escola e encontrava minha mãe chorando. Então, eu finalmente a disse um dia: “Mãe, tudo vai mudar. Você vai ver. Eu vou jogar futebol pelo Anderlecht e vai acontecer rápido. Vamos ficar bem. Você não precisará mais se preocupar”.

Eu tinha seis anos.

Eu perguntei para o meu pai: “Quando eu posso começar a jogar futebol profissional?”

Ele disse: “Dezesseis anos”

Eu disse: “Ok, dezesseis anos, então”.

Aconteceria. Ponto final.

Deixa eu dizer uma coisa – todo jogo que eu já disputei foi uma final. Quando eu jogava no parque, era uma final. Quando eu jogava no recreio do jardim de infância, era uma final. Eu estou falando sério para caralho. Eu tentava rasgar a bola todas as vezes que eu chutava. Força total. Não estava chutando com o R1, brother. Não era chute colocado. Eu não tinha o novo Fifa. Eu não tinha um Playstation. Eu não estava brincando. Eu estava tentando te matar.

Quando eu comecei a ficar mais alto, alguns dos professores e pais começaram a me estressar. Eu nunca vou esquecer a primeira vez que ouvi um dos adultos dizer: “Ei, quantos anos você tem? Que ano você nasceu?”

E eu fiquei, tipo, o quê? Tá falando sério?

Quando eu tinha 11 anos, eu jogava pela base do Lièrse, e um dos pais do outro time literalmente tentou me impedir de entrar no gramado. Ele disse: “Quantos anos tem essa criança? Onde está o documento dela? Da onde ela veio?”

Eu pensei: “Da onde eu vim? O quê? Eu nasci na Antuérpia. Eu vim da Bélgica”.

Meu pai não estava lá porque ele não tinha carro para me levar aos jogos for a de casa. Eu estava completamente sozinho e precisava me impor. Eu fui pegar meu documento, na minha mala, e mostrei para todos os pais, e eles o passaram de mão em mão, inspecionando, e eu lembro do sangue me subindo à cabeça… e pensei: “Oh, eu vou matar o seu filho mais ainda agora. Eu já ia matá-lo, mas, agora, eu vou destruí-lo. Você vai levar seu filho para casa chorando agora”.

Eu queria ser o melhor jogador de futebol da história da Bélgica. Era esse meu objetivo. Não apenas bom. Não apenas ótimo. O melhor. Eu jogava com muita raiva por causa de muitas coisas… por causa dos ratos que viviam no nosso apartamento…. porque eu não podia assistir à Champions League… pela maneira como os outros pais olhavam para mim.

Eu estava em uma missão.

Quando eu tinha 12 anos, eu marquei 76 gols em 34 partidas.

Eu marquei todos eles usando as chuteiras do meu pai. Quando nossos pés ficaram do mesmo tamanho, nós as compartilhávamos.

Um dia, eu liguei para o meu avô – o pai da minha mãe. Ele era uma das pessoas mais importantes da minha vida. Ele era minha conexão com a República Democrática do Congo, da onde minha mãe e meu pai vieram. Então, eu estava no telefone com ele um dia, e eu disse: “Estou indo bem. Eu fiz 76 gols e ganhamos a liga. Os grandes times estão começando a me notar”.

E geralmente ele queria ouvir sobre os meus jogos. Mas, naquela vez, estava estranho. Ele disse: “Yeah, Rom, yeah, isso é ótimo. Mas você pode me fazer um favor?”

Eu disse: “Sim, qual?”

Ele disse: “Você pode cuidar da minha filha, por favor?”

Eu me lembro de ter ficado confuso. Sobre o que o vovô estava falando?

Eu disse: “A mamãe? Sim, estamos bem. Estamos ok”.

Ele disse: “Não. Você tem que me prometer. Você pode me prometer? Cuide da minha filha. Apenas cuide dela para mim. Ok?”

Eu disse: “Sim, vovô. Entendi. Eu prometo”.

Cinco dias depois, ele morreu. E, então, eu entendi o que ele queria dizer.

Eu fico muito triste pensando nisso porque eu gostaria que ele tivesse ficado vivo mais quatro anos para me ver jogar pelo Anderlecht. Para ver que eu cumpri minha promessa, sabe? Para ver que tudo ficaria bem.

Eu disse para minha mãe que eu conseguiria chegar lá quando tivesse 16 anos.

Eu errei por 11 dias.

24 de maio de 2009. A final do playoff. Anderlecht versus Standard Liège.

Aquele foi o dia mais doido da minha vida. Mas precisamos retroceder um pouco. Porque no começo da temporada, eu mal estava jogando pelo sub-19 do Anderlecht. O treinador me colocou na reserva. E eu pensava: “Como vou conseguir um contrato profissional no meu 16º aniversário se ainda estou no banco pelo sub-19?”.

Então, fiz uma aposta com o treinador. Eu disse para ele: “Eu garanto algo a você. Se você me colocar para jogar, eu vou fazer 25 gols até dezembro”.

Ele riu. Ele literalmente riu da minha cara.

Eu disse: “Vamos fazer uma aposta”.

Ele disse: “Ok, mas se você não fizer 25 gols até dezembro, você vai para o banco de reservas”.

Eu disse: “Certo, mas, se eu vencer, você vai limpar todas as minivans que levam os jogadores para casa depois do treino”.

Ele disse: “Ok, fechado”.

Eu disse: “E mais uma coisa. Você tem que fazer panqueca para nós todos os dias”.

Ele disse: “Ok, certo”.

Foi a aposta mais estúpida que o homem já fez.

Eu tinha 25 gols em novembro. Estávamos comendo panqueca antes do Natal, bro.

Que sirva de lição. Você não mexe com um garoto que está com fome.

Eu assinei contrato professional com o Anderlecht no meu aniversário, 13 de maio. Fui direto comprar o novo Fifa e um pacote de TV a cabo. Já era o fim da temporada, então estava em casa relaxando. Mas a liga belga estava doida naquele ano, porque Anderlecht e Standard Liège terminaram empatados em pontos. Então, haveria um playoff de duas partidas para decidir o título.

Durante o jogo de ida, eu estava em casa assistindo à TV como um torcedor.

Então, no dia anterior ao jogo de volta, eu recebi uma ligação do técnico dos reservas.

– Alô?

– Alô, Rom. O que você está fazendo?

– Saindo para jogar bola no parque.

– Não, não, não, não, não. Faça suas malas. Agora mesmo.

– Por quê? O que eu fiz?.

– Não, não, não. Você precisa sair para o estádio agora. O time principal pediu por você.

– Yo….o quê? Eu?!

– Sim. Você. Venha. Agora.

Eu literalmente corri para o quarto do meu pai. “YO! Levanta, porra. Precisamos correr, cara!”.

– Huh? O quê? Pra onde?

– ANDERLECHT, CARA!

Eu nunca vou esquecer. Eu cheguei ao estádio e praticamente corri para o vestiário. O roupeiro disse: “Ok, garoto, que número você quer?”.

E eu disse: “Me dá a 10”.

Hahahahahaha sei lá, eu era muito jovem para ter medo, acho.

E ele: “Jogadores da base usam números acima do 30”.

Eu disse: “Ok, bem, três mais seis é igual a nove, e esse é um número legal, então me dá a 36”.

Naquela noite, no hotel, os jogadores adultos me fizeram cantar uma música para eles no jantar. Eu nem me lembro qual escolhi. Minha cabeça estava girando.

Na manhã seguinte, meu amigo literalmente bateu na porta da minha casa para ver se eu queria jogar futebol e minha mãe disse: “Ele saiu para jogar”.

Meu amigo: “Jogar onde?”

Ela disse: “Na final”.

Saímos do ônibus no estádio, e cada jogador estava usando um terno legal. Menos eu. Eu saí do ônibus usando um terrível agasalho e todas as câmeras de TV estavam na minha cara. A caminhada para o vestiário foi de talvez 300 metros. Talvez uma caminhada de três minutos. Assim que coloquei meu pé no vestiário, meu telefone começou a explodir. Todo mundo havia me visto na televisão. Eu recebi 25 mensagens em três minutos. Meus amigos estavam ficando loucos.

– Por que você está no jogo?!

– Rom, o que está acontecendo? Por que você está na TV?!

A única pessoa que respondi foi meu melhor amigo. Eu disse: “Brother, eu não sei se vou jogar. Eu não sei o que está acontecendo. Mas continua vendo TV”.

Aos 18 minutos do segundo tempo, o treinador me colocou em campo.

Eu corri no gramado pelo Anderlecht aos 16 anos e 11 dias.

Perdemos a final naquele dia, mas eu já estava no céu. Eu cumpri a promessa para a minha mãe e para meu avô. Aquele foi o momento em que eu soube que ficaríamos bem.

Na temporada seguinte, eu ainda terminava o meu último ano do colégio e jogava na Liga Europa ao mesmo tempo. Eu precisava levar uma grande mochila para o colégio para poder pegar um voo no fim da tarde. Vencemos a liga com folga. Foi…uma loucura!

Eu realmente esperava que tudo isso acontecesse, mas talvez não tão rápido. De repente, a imprensa estava crescendo em torno de mim, e colocando todas essas expectativas nas minhas costas. Especialmente com a seleção nacional. Por algum motivo, eu não estava jogando bem pela Bélgica. Não estava funcionando.

Quando as coisas corriam bem, eu lia os artigos de jornal e eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga.

Quando as coisas não corriam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga descendente de congoleses.

Se você não gosta do jeito como jogo, tudo bem. Mas eu nasci aqui. Eu cresci na Antuérpia, em Liège e em Bruxelas. Eu sonhava em jogar pelo Anderlecht. Eu sonhava em ser Vincent Kompany. Eu começava uma frase em francês e terminava em holandês, e colocava um pouco de espanhol e português ou lingala, dependendo do bairro em que eu estivesse.

Eu sou belga.

Somos todos belgas.

Eu não sei por que algumas pessoas do meu próprio país querem que eu fracasse. Eu realmente não entendo. Quando fui para o Chelsea e não estava jogando, eu os ouvi dando risada de mim. Quando fui emprestado para o West Brom, eu os ouvi dando risada de mim.

Mas tudo bem. Essas pessoas não estavam comigo quando colocávamos água no nosso cereal. Se vocês não estavam comigo quando eu não tinha nada, vocês realmente não podem me entender.

Sabe o que é engraçado? Eu perdi dez anos de Champions League quando era criança. A gente não podia pagar. Eu chegava à escola e todas as crianças estavam falando sobre a final e eu não sabia o que havia acontecido. Eu me lembro de 2002, quando o Real Madrid jogou contra o Bayer Leverkusen, e todo mundo falava “aquele voleio! Meu Deus, aquele voleio!”.

E eu tinha que fingir que sabia do que estavam falando.

Duas semanas depois, estávamos sentados na aula de computação, e um dos meus amigos baixou o vídeo da internet, e eu finalmente vi Zidane mandar aquela bola no ângulo com a perna esquerda.

Naquele verão, eu fui para minha casa para assistir ao Ronaldo Fenômeno na final da Copa do Mundo. A história de todo o resto daquele torneio eu ouvi das crianças da escola.

Eu lembro que eu tinha buracos nos meus sapatos em 2002. Grandes buracos.

Doze anos depois, eu estava jogando a Copa do Mundo.

Agora, estou prestes a jogar outra Copa do Mundo e meu irmão está comigo desta vez (o texto foi provavelmente escrito antes da convocação final porque Jordan Lukaku, irmão de Romelu, estava na pré-convocação, mas não chegou à lista final). Duas crianças da mesma casa, da mesma situação, que deram certo. Sabe de uma coisa? Eu vou me lembrar de me divertir dessa vez. A vida é curta demais para estresse e drama. As pessoas podem dizer o que quiserem sobre nosso time, sobre mim.

Cara, escuta – quando éramos crianças, não podíamos pagar para ver Thierry Henry no Match of the Day! Agora, estamos aprendendo com ele todos os dias no time nacional (Henry é auxiliar de Roberto Martínez, técnico da Bélgica). Estou junto com a lenda, em carne e osso, e ele está me dizendo tudo sobre como atacar os espaços como ele costumava fazer. Thierry deve ser o único cara no mundo que vê mais jogos do que eu. Nós debatemos tudo. Estamos sentados e tendo debates sobre a segunda divisão da Alemanha.

– Thierry, você viu o esquema do Fortuna Düsseldorf?”

– Não seja tonto. Claro que vi”.

Isso é a coisa mais legal do mundo para mim. Eu só gostaria que meu avô estivesse vivo para ver isso.

Não estou falando da Premier League.

Nem do Manchester United.

Nem da Champions League.

Nem da Copa do Mundo.

Não é disso que estou falando. Eu apenas queria que ele estivesse vivo para ver a vida que temos agora.

Eu gostaria de ter mais uma conversa com ele por telefone, para poder dizer para ele: “Viu? Eu disse para você. Sua filha está bem. Não há mais ratos no nosso apartamento. Ninguém mais dorme no chão. Não há mais estresse. Estamos bem agora. Estamos bem.Eles não precisam mais checar nossos documentos. Eles conhecem nosso nome”.

Romelu Lukaku

 

Em tempo: achei a fonte da tradução: http://m.trivela.uol.com.br/players-tribune-da-pobreza-ao-preconceito-lukaku-tem-algumas-coisas-dizer/

 

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Sobre o 7 x 1, muito além do futebol

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Minha relação com a seleção brasileira foi fortemente abalada na final da Copa de 1998. Foi a última vez que fiquei tenso com um jogo do Brasil, que senti aquele frio na barriga. Aquele 3 x 0 da França quebrou o encanto. Foi um jogo tão esquisito, com tantas repercussões e histórias mal contadas, que nunca mais recuperei aquela torcida de antes. Eu entendia derrotas perfeitamente. Afinal, vivi 82, 86 e 90, sofrendo com aquelas três derrotas. Mas nunca tinha visto uma apatia tão grande, aquela falta de vontade de reverter um resultado. Mesmo o time de 90, tão criticado, caiu lutando até o último minuto, perdendo gols incríveis contra o time de Maradona e cia.

Em 2002 ainda torci, mas sem entusiasmo. O frio da barriga era definitivamente coisa do passado. Na época costumava dizer que torcer mesmo era pelo Flamengo, pela seleção tinha apenas simpatia. Fiquei feliz com o título, mas nada mais do que isso. Menos do que uma conquista de estadual pelo rubro-negro.

Essa simpatia ruiu em 2006. Foi a última vez que cheguei a me entusiasmar pela nossa seleção. Aquele timaço que ameaçava recuperar todo amor pelo futebol brasileiro, que encantou na Copa das Confederações, terminou de forma melancólica a Copa, tomando um show, mais um, de Zidane. Logo veio a público todo o oba a oba que foi feito, talvez o maior caso de salto alto da história do futebol. Fomos todos soberbos, tanto o time quanto nós torcedores. Tínhamos certeza que levaríamos a Copa. Roberto Carlos e seu meião foi o bode expiatório para não termos que lidar com a realidade, a de que desprezamos os adversários.

Daí veio a primeira era Dunga. Não deu mais. A partir daí, veio uma fase de completa indiferença, culminando com a vinda Felipão e a identificação da seleção com o lulismo, como símbolo da república popular, que teria o seu grande triunfo com a vitória na Copa. Quando chegou 2014 a relação tinha se transformado, como costuma acontecer, da indiferença à raiva. Torci contra a seleção em todos os jogos e vibrei com cada gol da Alemanha. Uma seleção tão horrorosa, tão porcamente treinada, tão amadora, não poderia ganhar uma Copa, seria um desserviço ao futebol. Felizmente, perdeu de forma tão incontestável que não teria jeito de esconder para debaixo do tapete, viriam mudanças, quem sabe um resgate ao que já fomos um dia. Triste engano.

Veio o Dunga novamente. Aquilo foi a demonstração de desprezo por todos nós, e de nossa impotência. Somos todos palhaços, foi a mensagem que passaram.  Não aprendemos com o 7 x 1. E duvido que um dia aprenderemos.

Poucos entendem o símbolo que se criou. O símbolo do que nos tornamos como nação e povo. O Brasil é aquele time, que diante do primeiro adversário realmente forte, sucumbiu de forma vergonhosa, para depois se tornar motivo de piadas e memes. Nada é tão característico de nossa relação com o mundo. Fazemos humor com nós mesmos para não termos que encarar a verdade. Escolhemos sempre o mundo como idéia. Escolhemos a segunda realidade, a que criamos com nossa imaginação, pois não temos coragem de nos olhar realmente no espelho. Não queremos ver o que o Brasil revela sobre nós mesmos.

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Começou a copa

Começou a Copa!

 

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Já que as bancadas esportivas, especialmente a gaiola das loucas de esquerda da ESPN, está muito ocupada em discutir sociologia e fazer pregação moral, vou tratar aqui um pouco de futebol. Som, a despeito de vaias para a Gilma, manifestações de idiotas pelas redes sociais, problemas de infra-estrutura, etc, rolou bola, já em 4 jogos.

Por enquanto confesso que me surpreendi. Os jogos foram muito bons, com os times jogando para frente e buscando o gol. Surpreendentemente, o jogo mais apertado, 1 x 0 do México sobre Camarões, foi enganoso. Poderia ter sido tranquilamente um 3 x 2 pois ambos os times, especialmente o mexicano, perderam gols que poderiam ter deixado o placar mais elástico. Já o 3 x 1 do Brasil também engana por sugerir uma superioridade que não houve e por ter sido um jogo marcado pela péssima arbitragem (sustento que além do penalti inventado, não foi falta em Júlio César e que no mínimo foi duvidosa a roubada de bola do Ramires no meio campo). O que não me leva a entrar no coro de que a Copa está comprada, apenas que o juiz foi muito ruim.

Agora show mesmo deu a Holanda. Alguns luminares na televisão, quando não estão ocupados puxando o saco do governo ou sendo supostamente corretos, lembraram que a Espanha teve a chance de fazer 2 x 0 e matar o jogo ainda no primeiro tempo, mas esqueceram que a Holanda teve uma chance ainda mais clara de ter feito 1 x 0 e começado a tratorar desde o início. Depois dessa sova, acho que caiu finalmente a ficha para o time espanhol e acredito que virão com outra postura para os próximos jogos. O tempo para recuperar é pouco e na terça devem enfrentar dois adversários, o Chile e a torcida brasileira no Maracanã. 

Além do chocolate holandês, chama atenção a beleza dos gols, especialmente o primeiro, uma pintura para entrar na história das copas, e o último, onde o Robben teve uma arrancada incrível, domínio e habilidade para enterrar o time espanhol. Impressionante.

De maneira geral achei os 4 jogos bem superiores ao que costumamos ver em Copa do Mundo, especialmente na primeira rodada. Pelo menos dentro de campo, excetuando a arbitragem, a coisa vai muito bem. Veremos o que o sábado nos reserva.

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Novo Maracanã

Ontem voltei ao Maracanã depois de quatro anos de ausência. Gostei do que vi. O estádio está realmente no nível que me acostumei nos Estados Unidos, inclusive a parte de recepção, com funcionários de 10 em 10 metros oferecendo ajuda e orientação. As condições de jogo também são excelentes, com um gramado impecável.

Algumas algumas melhorias como uma melhor utilização das televisões. A maior parte do período antes da partida ela fica mostrando apenas o emblema da partida que será disputada. Poderia estar passando vídeos, aquecendo os torcedores para a partida com músicas e hinos. Durante o jogo tinha que assumir o papel de animadora da torcida, como acontece nos esportes americanos. O preço da alimentação está no que se cobra aí fora em estádios e ginásios. Não vi nada demais.

Por fim, acho que o principal problema do estádio hoje são os assessos. O estacionamento é ridículo e acaba quase tudo convergindo para o metrô, que não aguenta a demanda. Você acaba se sujeitando a vir esmagado como uma lata de sardinha em vagões super lotados.

Enfim, o estádio está bonito e funcional. Uma pena que tenhamos esperado até ter uma Copa do Mundo para fazer o investimento. Considerando que o dinheiro foi, de uma maneira ou de outra, público, dava para ter feito uma única e decente reforma no estádio ao invés de três. O pagador de impostos teria agradecido.

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O Campeonato Brasileiro não acabou, declarou o presidente do STJD. Talvez tenha razão, talvez nem tanta, mas o fato é que o episódio da escalação de um desconhecido jogador por um time tradicional, mas de pouca relevância atual, revela muito mais sobre o que somos como sociedade do que efetivamente sobre o esporte e explica porque estamos onde estamos.

Não vou aqui entrar em briga de torcida e rejeito qualquer discussão tola com torcedores do Fluminense, até porque duvido que exista um clube, uma diretoria, uma torcida, que não se comportasse da mesma forma, talvez de forma ainda pior, se fosse com eles. O Fluminense não é nenhuma exceção no panorama esportivo, ao contrário, revela o padrão comum do futebol brasileiro. Por incrível que pareça, a participação do clube em dois episódios no passado pode até prejudicá-lo hoje. Mas não é esse o assunto que me dispus a escrever. Interessa-me mais a ligação do episódio com nós, os brasileiros reais, que agem na história.

Chamou-me atenção a quantidade de pessoas que tiraram o regulamento não sei de onde e esfregaram na cara dos seus detratores. Está tudo aqui. Não vê? É no artigo X, sub-item XYZ. O Fluminense _ e repito, poderia ser qualquer outro time _ não tem nada a ver com isso. Quem errou foi a Portuguesa e deve pagar. Se não aplicarmos a lei como será o futuro? Questão de justiça.

Essa é uma das palavras que toda vez que é pronunciada publicamente me acende um sinal de alerta em algum lugar. Justiça. Ela se tornou um termo tão amplo, e vazio de significado, que pode significar qualquer coisa. Podemos dizer realmente, sem nos envergonharmos, que seria justo o rebaixamento de uma equipe que superou com dignidade tantas dificuldades, inclusive erros grosseiros de arbitragem, para conseguir uma vitória que praticamente valeu como um título, conseguir chegar na última rodada disputando um amistoso? Ah, mas está escrito! Está na lei! E o que não está escrito neste país que tem lei até para saleiro em lanchonete? Que não se pode levar dinheiro trocado para comprar pão porque um grupo de luminares decidiu que somos incapazes de comprá-los por unidade? Que estamos prestes a decidir que apenas um partido político vai poder receber financiamento privado? Acho difícil que algum brasileiro não tenha em algum momento infringido alguma norma. Vou contar uma coisa para vocês, os gregos, que apesar de antigos eram sábios, fizeram todo um gênero literário apenas sobre o conflito entre as normas escritas e a justiça. Chamava-se tragédia. Leiam Antígona e entenderão do que estou falando.

O caso afronta o bom senso do princípio ao fim. Tivesse a Portuguesa lutando pelo resultado e colocado um jogador irregular em campo, eu não teria absolutamente nada a dizer. Mas não foi isso que aconteceu e não se pode ignorar as condições concretas e particulares. A Portuguesa jogou um simples amistoso sem a menor expectativa de ganhar qualquer vantagem. Não havia nenhuma vantagem possível de ser ganha, o que revela que tratou-se de um descuido do clube e não um ação que visava fraudar uma competição. Puni-la com os 4 pontos é não distinguir os dois casos, é tratá-la como um clube que tivesse feito o mesmo com propósitos ilícitos. É tratar de forma igual duas situações diferentes. Se isso não cabe na definição de injustiça, conheço pouca coisa que caiba. São Tomás de Aquino ensinava que as normas são sempre gerais e que as situações humanas são particulares e concretas. Saber aplicar as normas gerais na situação real é onde se encontra a sabedoria.

Uma sociedade não pode ser melhor do que os indivíduos que a constituem, ensinava também o velho Platão. Mais que isso, ele acreditava que uma sociedade justa só poderia ser produto de indivíduos capazes de se amarem, de se colocarem no lugar do outro e fazer a pergunta de ouro: e se fosse eu no lugar dele? Você que bate no peito para dizer que a Portuguesa deve ser punida com o rebaixamento por um erro honesto, que não visava nem obteve nenhum benefício, até porque era impossível, consegue por um momento tirar sua camiseta de torcedor e se colocar no lugar da Portuguesa e dizer sinceramente que ela deve ser punida tão severamente? Para salvar sua cabeça vale colocar a do próximo em uma bandeja? Não se trata de ter pena da Portuguesa, mas aplicar a ela os princípios que gostariamos que fosse aplicados a nós, quando cometermos um erro de mesma natureza. Sim, está escrito. Mas nenhuma lei é perfeita e temos que ser capazes de julgar as particularidades. Não ter essa capacidade, achar que quando for a meu favor a lei deve ser aplicada doa a quem doer, é criar um impedimento para o funcionamento harmônico de qualquer sociedade. 

Se retirarmos todas as camadas de informações e formos na essência do problema, chegaremos a um ponto claro: a Portuguesa não visava e não obteve nenhum benefício com seu erro; além do fato que nenhum benefício era possível. Puni-la com o rebaixamento é aplicar uma pena desproporcional a qualquer dolo, contrariando princípios básicos não só do direito, mas do também do bom senso. Ao dizer que o problema é da Portuguesa e não tenho nada a ver com isso, estou fazendo uma declaração contundente sobre o meu papel na sociedade e da consideração que tenho com o próximo. Se a lei estiver do meu lado, independente do mérito, sinto muito, azar o seu. Uma sociedade que acredita que um dispositivo legal é superior a qualquer consideração ao próximo está fadada ao fracasso e não vai passar disso. A grande verdade é que muitas vezes para sermos justos temos que ter coragem de aceitar nossas responsabilidades com o próximo e não usar a lei como salvação para nossos erros.

Removidas as aparências, o que resta é um clube se defendendo de uma acusação mas sendo julgado por outra, como tantas vezes aconteceu na história e uma vez ficou registrada em uma célebre apologia. O crime da Portuguesa não foi escalar um jogador irregular, mas se impor em uma primeira divisão sem ter uma torcida que justifique; de ocupar o noticiário e o horário nobre com poucos se interessando pelo seu destino. Aí entra também uma grande hipocrisia. Se é assim, é melhor acabarmos logo com esse negócio de rebaixamento e fazer um campeonato com apenas os 20 times comercialmente mais vendáveis, como fazem os americanos com suas ligas profissionais. Mas não vamos abrir outro tópico de discussão.

Que não se façam com a Portuguesa o que não gostaríamos que fizesse conosco. Talvez seja essa a essência do que seja justiça. Temos sempre que pensar bem na hora de evocá-la. Podemos ser suas próximas vítimas.

 

(13 de dezembro de 2013)

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