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Archive for the ‘Cinema e Televisão’ Category

Bergman, silêncio III

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Semana passada assisti o terceiro filme da trilogia de Bergman sobre o silêncio de Deus. O Silêncio (1963), conta a estória de um dia na vida de duas irmãs, a intelectual Ester e a sensual Ana. Diante de um ataque de bronquite crônica de Ester, elas interrompem uma viagem de trem e se hospedam em um hotel em uma cidade não nominada, que vive a expectativa de uma guerra.

Minhas notas iniciais:

  1. Onde está o silêncio de Deus neste filme? Ao contrário dos dois outros filmes, nenhum das personagens formula indagação sobre Deus.
  2. Talvez a solução esteja no entendimento dos dois primeiros mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo.
  3. Se o foco de Luz de Inverno está na relação direta com Deus, O Silêncio tem seu centro na relação entre as pessoas.
  4. Se o padre encontra o silêncio de Deus talvez por sua incapacidade de se comunicar com as pessoas, a situação aqui parece invertida. As irmãs talvez falhem em se comunicar pela ausência de uma preocupação com Deus. Ambas se entregam a seus ídolos (sexo e vida intelectual).
  5. No fundo, as irmãs são iguais. Só muda o foco da atenção delas. Não sabem lidar com o amor entre elas e tudo vira uma oportunidade para agressão e causar dor.
  6. Quem mais fala no filme é o estranho camareiro, que parece se preocupar genuinamente com o sofrimento de Ester.
  7. O filho de Ana está entediado, pois é ignorado pelas irmãs pela maior parte do tempo. Talvez represente o futuro, que é sempre sacrificado quando nos deixamos levar por nossas intemperanças.
  8. Desta vez o filme não tem uma abertura para alguma otimismo. O destino das irmãs parece fadado à infelicidade. O que fica evidente é a falta de comunicação real entre elas. Mesmo quando conversam, se deixam levar pelo ressentimento e não abrem espaço para um entendimento verdadeiro.
  9. Como no primeiro filme, novamente Bergman sugere a questão do incesto. Por que? O que deseja comunicar?
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Assisti o segundo filme da trilogia Silêncio, do Ingmar Bergman. Trata-se de Luz de Inverno (1962). O tema é um dia na vida de um padre que perdeu a fé, e por isso mesmo se torna incapaz de ajudar sua paróquia. O Padre Tomás se angustia com o que ele considera o silêncio de Deus, que não responde suas súplicas. Ele tem um romance com uma professora, motivo de fofoca na pequena cidade em que vive.

Minhas notas:

  1. Por mais que esteja confuso, e seja um pecador, seus sacramentos continuam válidos. É um dos mistérios da Igreja que ela não depende da santidade de seus sacerdotes para prosseguir em sua missão.
  2. Seu coração esvaziado reflete a comunidade ao seu redor ou é o contrário? A Igreja vazia é um símbolo do vazio interior do pobre Tomás.
  3. De todos os personagens, ninguém é mais enfadado com tudo aquilo do que o organista da igreja.
  4. O sacristão deficiente físico, que no início do filme aparece como um incômodo para os demais, no final aparece como o verdadeiro cristão, que a despeito de tudo reflete sobre as escrituras e tenta buscar uma orientação de como interpretá-las corretamente.
  5. O casal que busca auxílio para a depressão do marido com o padre é a representação das pessoas comuns, que sofrem os problemas da existência humana. Recorrendo a platitudes inicialmente, e depois desabafando seus próprios problemas, o padre é incapaz de ajudá-lo.
  6. A esposa é a representação da mulher pragmática, que leva um lar a frente a despeito de todas as dificuldades.
  7. A depressão e o suicídios provocam danos irreparáveis a quem fica. Principalmente os que realmente amam.
  8. Luz de inverno. Ela é rara, mas quando surge ilumina com força. Essa é a metáfora para a resposta de Deus no mundo. Creio que Ele age principalmente através das pessoas. É no outro que vamos encontrar as respostas que procuramos.
  9. Quando Padre Tomás resolve rezar a missa exclusivamente para Marta, que é tratada como ninguém pelo organista, ele se coloca realmente como um instrumento de Deus. Trata-se de um ato de amor.
  10. Não seria a fala do sacristão uma resposta de Deus a Tomás?

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Bergman, silêncio

Comecei a ver a famosa trilogia Silêncio, de Ingmar Bergman. Esta semana assisti Através de um Espelho (1961), o primeiro. Minhas primeiras notas:

  1. Que atriz era a Bibi Andersen!
  2. Da mesma forma que Deus não responde, Papa também não conversa com Minus. A última frase de Minus no filme talvez seja a expressão do milagre. O menino fica literalmente iluminado.
  3. Pobre Martim. Ama realmente a esposa, mas não sabe o que fazer. A tragédia do homem comum, que é afastado por quem ama.
  4. Não entendi a imagem de Deus como uma aranha. Dizem que isso se explica no segundo filme. Veremos.
  5. Que diálogo entre Martim e Papa. O escritor se afastou de todos que ama, criando um vazio em suas vidas. Acho que é o próprio Bergman aí.
  6. Minus é explosão de energia, aprisionado.
  7. O escritor que busca algo pessoal para tratar. E encontra no sofrimento da filha.
  8. Os quatro personagens parecem viver esperando um sinal da presença divina, mas são incapazes para se abrir para esta experiência. A ilha no meio do nada é a metáfora para uma existência sem Deus.
  9. Eles jogam a rede, mas nada pescam.
  10. Não se encontra o amor sem se arriscar. É a mensagem da peça dentro do filme.

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  • Os dois personagens estão tomados pelo ennui, o tédio existencial de quem conseguiu o que queria mas não um sentido para suas vidas.
  • Nickie, como diz a avó, sempre conseguiu as coisas fácil demais. Está prestes a se casar com uma milionária e passar uma vida sem preocupações.
  • Terry vai pelo mesmo caminho. Aparentemente teve uma infância difícil, mas vai se casar com um homem rico e terá segurança.
  • Nenhum dos dois estão felizes. Nickie queixa-se do tédio no navio, de não ter nada para se ocupar.
  • Ambos inicial um jogo de sedução, mais para se ocuparem do que por qualquer outro motivo.
  • Isolados do contexto de seus casamentos, daí a importância do navio, baixam suas guardas e se permitem ser honestos, o que gera uma camaradagem, origem do verdadeiro romance.
  • O processo culmina na ilha, quando a presença da avó e do ambiente familiar, reconectam ambos com suas origens, com as coisas que realmente importam. Saem as ilusões do mundo e fica um homem e uma mulher com suas falhas, e que se apaixonam.
  • A segunda parte da viagem é a rendição, em que ambos aceitam a inevitabilidade de largar os confortos materiais (nos dois casamentos) e viverem uma aventura, o romance. Chesterton já dizia que a essência do romance é a aventura, o medo misturado em confiança que o verdadeiro amor pode gerar.
  • Até aí, o filme poderia terminar no desembarque e fim das relações antigas. Só que vai além; os amantes não querem apenas o romance, querem ser dignos dele. Já sabem o que desejam, mas querem estar a altura do amor que nutrem um para o outro. Por isso os seis meses para “ajeitar a vida” são tão essenciais e confundem os críticos. Estes dizem que não faz sentido os seis meses para duas pessoas maduras como Nickie e Terry. Não faz sentido porque entendem o mundo apenas em sua realidade material, ignorando os aspecto espiritual. Eles se enganaram por tempo demais, vivendo a custas dos outros. Agora eles precisam tornarem-se auto-suficientes, mesmo que pobres.
  • Por isso Terry não conta do acidente, outro aspecto que parece inverossímil para os críticos. Ela não quer ser um fardo, ela precisa retomar sua autonomia, o que implica em superar sua dificuldade física. É preciso entender que durante este processo, são duas pessoas frágeis, que precisam se fortalecer.
  • Poderiam fazer isso juntos, mas o risco é grande de arruinar um relacionamento por não estarem ainda prontos. Não se trata de duas pessoas maduras que se encontram, mas de duas pessoas que se iludiram por muito tempo, que estavam à  beira do vazio existencial.
  • Quando se encontram, na cena final, já são pessoas autônomas. Com toda dificuldade, assumiram as rédeas de suas vidas e estão construindo suas histórias. Ainda resta um resquício de ironia e desconfiança em Nickie. Em nenhum momento passa por sua cabeça perguntar diretamente porque ela não compareceu ao encontro. Ele retoma, momentaneamente, o joguinho do início da viagem de navio. Falta-lhe ainda a confiança. Por fim, cai em si. Percebe seu erro, se arrepende e se coloca aos pés de Terry. Ambos estão prontos agora. Prontos para renderem-se ao outro.
  • Romance? Isso é uma estória de conversão! Uma conversão dupla, e por isso deve confundir tanto os críticos. Eles trocam o mundo da aparências (e do materialismo) pelo mundo da essência (da verdade), ou seja, o mundo do espírito, que é o que realmente importa. O instrumento para a conversão é o amor que sentem um pelo outro, a honestidade entre eles.
  • Como se chama uma estória de conversão, com base no amor e confiança, em que se marca um encontro no ponto mais alto de uma cidade para se unirem? Pois é. An Affair to Remember não é um romance, é um filme matafísico (o outro nome de religioso). Está disfarçado de romance. Como o cristianismo.

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I, Tonya

Finalmente assisti o filme que conta a história de Tonya Harding, a patinadora americana que se envolveu em um atentado que resultou em quebrar o joelho de Nancy Kerrigan, sua rival.

Lembro dos acontecimentos na época, mas nunca me interessei muito nos detalhes. O filme é baseado em depoimentos dos envolvidos no que chamam de “incidente”: Tonya, o ex-marido Jeff, o amigo idiota Shawn, a mão dela e outros personagens mais secundários. Apesar de basear em depoimentos, ou talvez por causa disso, o filme deixa a dúvida na extensão do envolvimento de Tonya no episódio. O que resta claro é a responsabilidade de ter se envolvido com  a figura abusiva de Jeff. Será sempre um mistério como muitas mulheres continuam em relacionamentos destrutivos como ela se permitiu, sempre na esperança que a pessoa vai mudar.

Um bom filme, que usa bem o recurso de misturara narração com os próprios atores simulando as entrevistas, o que confere um ar de realismo ao drama mostrado. Fiquei lembrando um periscope que vi com Scott Adams em que ele questiona a importância da família argumentando que basta um dos pais serem ruins para arruinar a vida de uma pessoa. É o que acontece com Tonya.

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Ontem assisti Baby Doll (1956), dirigido por Elia Kazan e texto do Tennessee Williams. Três personagens fascinantes, retratos do mundo moderno.

Um homem fraco, constantemente humilhado, que perde o controle sobre seu destino por falta de capacidade pessoal para lidar com a modernização. Um posso de ressentimento que encontra no uso a violência sua válvula de escape.

Uma mulher que se recusa a crescer e acha que pode brincar de boneca a vida inteira. Ao finalmente encontrar uma adversário que se recusa a fazer seu jogo tem a oportunidade de enfim amadurecer.

Um homem racional, produto da modernidade, mas que diante da incapacidade do estado não pensa duas vezes em assumir a justiça nas próprias mãos. Falta-lhe piedade e empatia para lidar com o mundo.

Um panorama sobre a ruptura de uma antiga ordem para emergência de uma nova, de natureza científica mas desprovida de laços de amizade que constroem uma sociedade.

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mondayFiquei bem impressionado com essa produção original NETFLIX (Onde Está Segunda?, 2017). Trata-se de uma distopia. O mundo está superpovoado e uma mutação devido a manipulação de alimentos provoca um surto de nascimento de múltiplos gêmeos. A solução é instituir um programa de filhos únicos em que os demais irmão são congelados para que os cientistas resolvam o problema de alimentação e eles sejam descongelados no futuro, com o problema resolvido.

Acho impressionante como o fantasma malthusiano continua a assombrar muita gente e volta e meia surja um filme que trata do problema populacional. Confesso que quando viajo de avião, só vejo uma imensidão de espaços vazios, mesmo passando pelo Estado de São Paulo. Talvez o fato de grande parte do mundo ocidental estar vivendo em grandes cidades explique a sensação de um mundo super povoado.

De qualquer forma, o filme é muito bem feito, com grande dose de tensão ao mostrar a luta de sete irmãs gêmeas que conseguem a proeza de chegar aos 30 anos como se fossem uma só. O segrego é que cada dia da semana, só uma pode circular enquanto as demais ficam escondidas no apartamento. Só que algo dá errado e Segunda (cada uma tem um nome da semana) não retorna. Sem saber o que aconteceu, as demais começam a descifrar o enigma.

Sistemas totalitários se constroem com a destruição de laços de solidariedade construídos historicamente, como a família. Não é diferente neste filme, onde a união das irmãs é sua força contra o Estado, e a desunião sua fraqueza. Assistam e descubram o que aconteceu com Segunda.

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