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Archive for 12 de julho de 2018

  • Os dois personagens estão tomados pelo ennui, o tédio existencial de quem conseguiu o que queria mas não um sentido para suas vidas.
  • Nickie, como diz a avó, sempre conseguiu as coisas fácil demais. Está prestes a se casar com uma milionária e passar uma vida sem preocupações.
  • Terry vai pelo mesmo caminho. Aparentemente teve uma infância difícil, mas vai se casar com um homem rico e terá segurança.
  • Nenhum dos dois estão felizes. Nickie queixa-se do tédio no navio, de não ter nada para se ocupar.
  • Ambos inicial um jogo de sedução, mais para se ocuparem do que por qualquer outro motivo.
  • Isolados do contexto de seus casamentos, daí a importância do navio, baixam suas guardas e se permitem ser honestos, o que gera uma camaradagem, origem do verdadeiro romance.
  • O processo culmina na ilha, quando a presença da avó e do ambiente familiar, reconectam ambos com suas origens, com as coisas que realmente importam. Saem as ilusões do mundo e fica um homem e uma mulher com suas falhas, e que se apaixonam.
  • A segunda parte da viagem é a rendição, em que ambos aceitam a inevitabilidade de largar os confortos materiais (nos dois casamentos) e viverem uma aventura, o romance. Chesterton já dizia que a essência do romance é a aventura, o medo misturado em confiança que o verdadeiro amor pode gerar.
  • Até aí, o filme poderia terminar no desembarque e fim das relações antigas. Só que vai além; os amantes não querem apenas o romance, querem ser dignos dele. Já sabem o que desejam, mas querem estar a altura do amor que nutrem um para o outro. Por isso os seis meses para “ajeitar a vida” são tão essenciais e confundem os críticos. Estes dizem que não faz sentido os seis meses para duas pessoas maduras como Nickie e Terry. Não faz sentido porque entendem o mundo apenas em sua realidade material, ignorando os aspecto espiritual. Eles se enganaram por tempo demais, vivendo a custas dos outros. Agora eles precisam tornarem-se auto-suficientes, mesmo que pobres.
  • Por isso Terry não conta do acidente, outro aspecto que parece inverossímil para os críticos. Ela não quer ser um fardo, ela precisa retomar sua autonomia, o que implica em superar sua dificuldade física. É preciso entender que durante este processo, são duas pessoas frágeis, que precisam se fortalecer.
  • Poderiam fazer isso juntos, mas o risco é grande de arruinar um relacionamento por não estarem ainda prontos. Não se trata de duas pessoas maduras que se encontram, mas de duas pessoas que se iludiram por muito tempo, que estavam à  beira do vazio existencial.
  • Quando se encontram, na cena final, já são pessoas autônomas. Com toda dificuldade, assumiram as rédeas de suas vidas e estão construindo suas histórias. Ainda resta um resquício de ironia e desconfiança em Nickie. Em nenhum momento passa por sua cabeça perguntar diretamente porque ela não compareceu ao encontro. Ele retoma, momentaneamente, o joguinho do início da viagem de navio. Falta-lhe ainda a confiança. Por fim, cai em si. Percebe seu erro, se arrepende e se coloca aos pés de Terry. Ambos estão prontos agora. Prontos para renderem-se ao outro.
  • Romance? Isso é uma estória de conversão! Uma conversão dupla, e por isso deve confundir tanto os críticos. Eles trocam o mundo da aparências (e do materialismo) pelo mundo da essência (da verdade), ou seja, o mundo do espírito, que é o que realmente importa. O instrumento para a conversão é o amor que sentem um pelo outro, a honestidade entre eles.
  • Como se chama uma estória de conversão, com base no amor e confiança, em que se marca um encontro no ponto mais alto de uma cidade para se unirem? Pois é. An Affair to Remember não é um romance, é um filme matafísico (o outro nome de religioso). Está disfarçado de romance. Como o cristianismo.
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