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Archive for maio \22\UTC 2017

As questões de Brasília

Ao invés de querer ter razão e emitir logo opinião sem fundamento, tenho acompanhado o que está saindo até aqui. É muito difícil saber ao certo o que é verdade. Há interesses pesados envolvidos, inclusive da maior empresa de televisão do país, que recebe grande aporte de propaganda da JBS, o que nos faz perguntar até que ponto o que seus jornalistas estão noticiando é exatamente verdade.

  1. A situação do Temer é grave, apesar da lambança com a tal gravação. Em situação normal, é para derrubar mesmo. Mas a sua substituição está sendo associada a um movimento de eleição direta antecipada, que desperta muita incerteza. A pior coisa que pode acontecer é a volta do PT ao poder com voto popular. Nada segurará o ressentimento dessa turma.
  2. O Lauro Jardim, e a Globo, venderam a gravação como definitiva. Não é o que estamos vendo. As provas documentais são mais graves do que esse áudio dúbio de valor questionável. Por que a pressa da emissora em se livrar do Temer?
  3. Há uma moderação ao tratar do tema por jornalistas fora Globo que contrasta fortemente com a emissora carioca. O que eles sabem? Ou, o que eles pretendem?
  4. O STF não é garantia nenhuma de manutenção da constituição. E faz tempo. Do mesmo jeito que fatiaram o impeachment, em emenda proposta pela Rede, não esqueçamos, podem permitir qualquer coisa para solucionar a crise.
  5. Uma coisa não tenho dúvidas: a JBS soltou dinheiro para todo mundo para ter toda política brasileira amarrada. Bolsonaro, por quem não tenho toda essa simpatia, sentiu o risco e devolveu o que foi doado para campanha de seu filho. E alertou publicamente para o fato. Significa que vários políticos receberam dinheiro da JBS sem pedir, uma oferta “desinteressada”. Estamos sabendo a razão.
  6. Qualquer chance de recuperação da economia a curto prazo foi para o brejo a essa altura, qualquer que seja o desfecho. A crise vai piorar.

O que me leva a tentar formular a questão central disso tudo.

É possível fazer as reformas necessárias e gerar condições para um desenvolvimento econômico sem passar a política a limpo? Até agora eu achava que sim, que o governo Temer poderia fazer esse papel e tomar as medidas impopulares para entregar um país pelo menos com alguma ordem nas contas em 2018. Que a lava jato poderia ocorrer paralelo com uma recuperação emergencial da economia. Mas é possível realmente?

Começo a achar que vai ser necessário realmente o caos político, com muitas prisões e ruína econômica completa para termos alguma chance de ter um futuro. Do jeito que a coisa estava caminhando com Temer, teríamos uma pequena melhora, a volta a um desenvolvimento medíocre, até o próximo grupo populista acender ao poder e torrar nosso futuro todo novamente. O Brasil precisa colocar um fim ao ciclo crise econômica-estabilidade forçada- desenvolvimento medíocre, e talvez a solução mesmo seja o apocalipse.

Não nos iludamos. Não é possível punir os políticos sem punir a sociedade brasileira inteira junto com crise aguda, perda de confiança, desemprego e etc. A grande pergunta que temos que responder é se estamos dispostos a pagar esse preço.

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Para os leitores de Rene Girard, os próximos dias no Brasil serão bem interessantes. Embora os grampos até agora falem em Temer e Aécio, não há muita dúvida que vai atingir muita gente, de todos os partidos. O potencial para um crise mimética é grande, repetindo o que aconteceu ano passado. Para entender o pensamento de Girard, recomendo esta palestra. (Aviso: é uma palestra que vai mudar sua forma de ver o mundo. O poder da tese de Girard é extraordinário)

Qual foi a solução da crise ano passado? A classe política inteira, incluindo os petistas, apesar de todo teatro, ofereceram um bode expiatório para pacificar o ambiente. O impeachment foi em boa parte isso, o sacrifício de um dos seus para acalmar a todos e gerar a paz. Foi o que ocorreu. Do impeachment para cá, a política brasileira viveu um período de relativa paz, tanto que os políticos já começavam a tirar as mangas de fora para sepultar a Lava Jato. Quando falo políticos, refiro-me aos três poderes, pois os ministros dos tribunais superiores também são políticos, de toga, mas políticos.

Com a delação da JBS, nova crise já começa. A saída, como sempre, é o mecanismo do bode expiatório. Vai funcionar? Como Girard ensina, só funciona se todos estiverem convencidos que o bode é realmente culpado; caso contrário, a paz não se sustenta.

Serão dias interessantes.

 

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Estamos chegando perto do meio do ano e já temos alguns lançamentos para acompanhar.

1. Chris Stapleton (From a Room: Volume I)

Mistura de country e southern rock. Prestem atenção nas músicas I Was Wrong e Without Your Love. Coisa fina. Candidatíssimo a melhor disco do ano.

https://open.spotify.com/embed/album/48lNtKwbQfwWsweRPdf16V

2. Father John Misty (Pure Comedy)

Música com alma, onde uma certa tristeza aparece a cada faixa.

https://open.spotify.com/embed/album/3CoFoDt6zt5EKxmTpOX32b

3. Blondie (Pollinator)

Sim, Deborah Harry e trupe estão de volta fazendo o que sabem de melhor: adaptar um som calcado no punk rock dos anos 70 com as tendências da música pop ao longo do tempo.

https://open.spotify.com/embed/album/6o4STrKI7oQoWppn6Nkdp5

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Uma psicopata no poder?

De tudo que Monica Moura falou, o que me chamou mais atenção foi a estória do email, talvez a mais fácil de checar. Se for verdade o que ela contou, que a ex-presidente escolheu o nome da conta iolanda2606, fazendo referência ao ato terrorista que resultou a morte de um soldado recruta do Exército que estava de sentinela, o significado é profundo.

Não se trataria mais de uma idiota corrupta como pensávamos até aqui. O que esse email revela é uma mente de psicopata, que sente profunda alegria com um ato que resultou na morte de um inocente. Não se sabe até onde foi a participação dela no atentado, mas parece que ela estava na célula que o executou.  Muda completamente a visão que eu tinha dessa mulher. Achava-a uma inapta, mas agora me pergunto quem realmente é.

Começo a achar que a subestimei.

Tínhamos uma psicopata no poder.

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Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

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Lula em Curitiba: o símbolo

Confesso que já não tenho o mesmo interesse pelos destinos do petismo que tinha até o impeachment. Na verdade, seu destino foi traçado na divulgação daqueles grampos em que se mostrou, com toda a vulgaridade envolvida, como a turma operava. A partir daí, foi tudo consequência. Não tive dúvidas no dia que o governo tinha acabado e que, uma vez fora do governo, não tinha mais como o partido manter sua força. Se tornou grande demais e pesado para viver sem nosso dinheiro.

Hoje tem um grande confronto em Curitiba. Mas não se trata da narrativa que parte do jornalismo tenta vender entre Moro e Lula. Trata-se do confronto entre promotores públicos e advogados de defesa em torno da culpa do ex-presidente. Estes sim estão no mesmo nível. Ao juiz cabe julgar, dar a sentença em função da competência de uma das duas partes em provar sua tese. Muito se fala do papel de Moro; acho muito mais importante o papel da promotoria. Mas não é disso que quero falar.

Eu não acredito em qualquer futuro político para Lula por causa da erosão do símbolo. Houve um momento que ele conseguiu construir um avatar que o brasileiro conseguia se identificar. O homem sofrido, que veio do nordeste, que venceu com honestidade, e um pouco de malandragem, que denunciou a corrupção dos políticos, que falou a voz do povo. Este símbolo foi eleito em 2002. O anterior, cheio de raiva e querendo mudar tudo, nunca ganhou nada. Em 2006 apareceu como o homem traído, mas que tinha uma malandragem que caiu bem também com um povo mais cínico, que descobriu com o mensalão que não era possível governar sem algumas concessões. Ganhou de novo. Ele representou nesses dois momentos o brasileiro socialmente dominante, o revoltado com a corrupção mas que não queria perder as conquistas da estabilidade econômica, e o brasileiro mais cínico, que descobria que tinha que ser assim mesmo, que todos roubavam.

Quando houve a famosa condução coercitiva, o Lula de ódio nos olhos voltou, o jararaca. Este a população nunca vai se identificar. Naquele momento eu vi a falta que faz um marqueteiro como João Santana, que nunca deixaria ele dar uma coletiva naquelas condições. Esse Lula fala para a própria militância, mas essa turma não ganha eleições.

Hoje vai aparecer um novo símbolo, o da jararaca no banco dos réus. Não é à toa que os advogados tentaram impedir a filmagem. O Lula acuado, na condição de réu, quebra completamente a aura de mito. Acho que nem vai concorrer em 2018, pois a ilusão de que é imbatível nas urnas é seu último trunfo. Precisa vender a todo tempo que tem o povo ao seu lado, daí a mobilização. Só que dessa vez não está lidando com aqueles panacas do PSDB.

O brasileiro pode se identificar com o sofrido, com o malandro, com o persistente, com o lutador, com o traído. Mas não consegue se identificar com a revolta e nem quer com o fracasso e a decadência, tudo que o Lula é hoje. Por isso seu futuro está destruído, assim como seu passado e presente. Quando elegeu Dilma tinha iniciado um processo de destruição de sua biografia sem saber.

Estamos vendo agora o fim desse filme. Não sabemos o que vai acontecer no particular, mas o símbolo foi erodido. Pode empolgar a minoria militante que vive na revolta constante contra a realidade. Mas o homem comum só vê, com horror, a coisa patética com que ele se tornou.

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Olhando de longe a eleição francesa, parece-me que mais importante que a escolha de Macron foi a escolha pela União Européia. No segundo turno, Macron centrou sua campanha na manutenção do status quo europeu, enquanto a Madame Le Pen insistia na separação.

A união européia tem sua origem em um tratado entre França e Alemanha no pós II Guerra Mundial a respeito de carvão e aço. São os dois bastiões do arranjo, embora a Alemanha seja a protagonista atual e a França se destaque mais como coadjuvante do que como ator principal.

Pois os franceses deixaram claro que pretendem ir com a UE até o fim, aconteça o que acontecer. Macron representou essa escolha. Se você acha que a França está em um bom caminho, fique feliz. Mas se você acha que está indo para o rumo errado, dobrou-se a aposta.

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